Se eu fosse padre, expulsava algumas pessoas da igreja. Há poucos dias, um bispo americano expulsou de lá uns polícias. Andavam a perseguir imigrantes. A casa de Deus é a casa de todos os Homens de boa vontade, não é a casa de racistas.
Quando eu era estudante, ainda havia poucos estudantes. As pessoas deviam achar estranho haver estudantes, em vez de carpinteiros ou pedreiros. Então, chamavam comunistas aos estudantes. Não sei se me chamaram também a mim. Talvez tivessem mais respeito, porque eu tinha sido sacristão e ia à missa.
Todos sabemos que Deus é grande. Mas grande não quer dizer que agora tudo seja permitido. Imaginem se alguém achasse bem que entrassem porcos numa igreja.
Uma igreja não é nenhuma pocilga. Mesmo para quem nunca entrou numa igreja, haja respeito. Uma igreja não foi pensada para porcos. Uma igreja, como eu a entendo, é um lugar de encontro com Deus. Um lugar de oração, para quem acredita e tem fé. Os porcos não têm fé. Mas eu já vi um porco entrar e sair de uma igreja e ninguém disse nada. Ninguém se incomodou e o porco assistiu à missa sem que ninguém também o incomodasse.
Eu vi e fiquei espantado, porque, se fosse eu que lá estivesse naquela igreja, tenho a certeza de que não iria suportar aquele cheiro a hipocrisia e falsidade, misturado com o cheiro próprio que só os porcos têm. Caramba, um porco numa missa!… não deveria ser permitido. É que não lembrava nem ao diabo. Antigamente, quando dizem que havia o diabo, o diabo não tinha coragem para entrar numa igreja. Os tempos são outros, mas não devia ser permitido.
Na igreja da minha freguesia está lá um anjo com uma lança espetada no diabo. Aquilo sempre me assustou e, quando era garoto, nunca ninguém me explicou porque é que o diabo estava ali representado naquela estátua, pendurada na parede. Aquele diabo fez-me pensar no porco que vi sair da missa numa igreja.
E se, em vez do diabo, estivesse o anjo com a lança espetada naquele porco? Rafael tinha uma grande imaginação!

