Carta a um pai que já partiu

Lembrei-me de te escrever porque estes tempos agora estão muito confusos e precisava de te ouvir. Enquanto escrevo, consigo ouvir-te e a tua voz não me confunde. Tu tinhas uma voz única e uma sabedoria que sempre te invejei. Nunca consegui compreender como pudeste aprender tanto sem nunca teres estudado numa universidade.

Tu costumavas dizer que as pessoas parece que estão fartas de estar bem. Tento compreender muitas anormalidades do dia a dia à luz dessa sabedoria. As pessoas estão fartas de estar bem. Estou convencido de que tens razão. Mas as pessoas dizem que está tudo mal e precisava de falar novamente contigo. Está mesmo tudo mal?

Lembras-te que adoravas ter alguns filhos professores? Naquela altura, parecia uma utopia, mas tu conseguiste. Hoje, poucos querem ser professores e muitos querem deixar de o ser. O que é que aconteceu, pai? As pessoas estão fartas de estar bem. Pode ser por isso? É que as pessoas  cansam-se de tudo e, muitas, até de viver. Cansaram-se de ser professores? 

Tu já falavas de liberdade e democracia e eu, criança, não percebia nada quando falavas disso. Naquela altura, vivíamos em ditadura e falar dessas coisas de democracia e liberdade era muito perigoso. Será que agora estamos todos fartos dessa liberdade e democracia de que tu falavas? É que as pessoas andam muito agitadas com umas ideias que tu combatias antigamente. Parece que gostam muito, outra vez, de ditadores. Pode ser por se terem fartado da democracia e já não saberem viver em liberdade?

Eu sei que tu foste um bom aluno e levaste sempre a escola a sério. Eu também ainda vou tendo alguns bons alunos, mas são cada vez mais raros. É tudo muito difícil e aborrecido. Os alunos acham tudo muito cansativo e, muitas vezes, nem os livros levam para a escola. Tinhas uma caligrafia linda e penso tantas vezes na tua caligrafia quando estou a ler os trabalhos que os meus alunos escrevem – e olha que, frequentemente, não consigo, pai, acredita. 

Falavas tantas vezes nas notas, e que notas é que íamos ter no Natal, no final do primeiro período. Notas era uma coisa séria. E sentíamos orgulho nisso. Sabes que já não se fala em notas? Nem em períodos. Quer dizer, uns sim, outros não, mas notas pouco interessa e os períodos já ninguém sabe muito bem quando são. Sim, agora depende da vontade de cada gerente da escola. Os professores dão as notas, mas depois ficam escondidas e ninguém pode ver as notas uns dos outros. Eu não sei porquê, mas dizem que é… olha, nunca percebi bem porquê.

Não te quero cansar mais, porque só de pensar nestas coisas, cansa muito. E vamos ter novamente eleições. Eu é que já não sei por que é que fazem eleições, porque todos os dias há muitas sondagens e parece a democracia da sondagem, em vez da democracia do voto livre e em consciência. Continuas a ter razão, eu sei, muitas pessoas nunca tiveram consciência nenhuma e votam em quem sabe mentir mais e melhor e passa mais tempo com propaganda na televisão. 

Desculpa, não queria abusar da tua paciência.

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