As telhas, mais dia, menos dia, voltam ao lugar a que sempre pertenceram. A luz, que ainda não voltou para todos, há de voltar, mais dia menos dia. A água também há de voltar a correr nas torneiras, mesmo naquelas onde ainda não corre. As comunicações, se ainda não voltaram para todos, será uma questão de dias. As casas destruídas e inabitáveis, vão-se resconstruindo e as pessoas voltam ao seu habitat natural.
Ontem, o primeiro ministro decretou o fim do estado de calamidade. Não sei o que é que eles entendem por calamidade. O que é calamidade para uns, pode ser indiferença para outros. O telemóvel não funciona, pode ser calamidade para muitos. A vida continua, pois continua, com mais ou com menos calamidades. Até ao fim.
Ontem, subi e desci colinas e montanhas. As mesmas onde subia e descia quando era criança. Nada era igual. Faltava alguma coisa. As árvores não estavam lá. As que resistiram heroicamente aos incêndios, sucumbiram com a tempestade. Deserto caótico. A terra, vala comum da natureza. Troncos rasgados e vergados e sepultados na terra molhada. São aqueles que recusaram e disseram não à indiferença e irresponsabilidade humana, teimosamente de pé, esqueletos descarnados, fantasmas da nossa consciência.
Silêncio. Aquele silêncio que ouvimos em confronto com a morte. Os pássaros não cantam. Já não há pássaros. Se houver pássaros, deixaram de voar. Ou voaram com o vento e o nosso desprezo pela Terra. O apelo da vida selvagem não se ouve. A Terra ficou muda e se houvesse pássaros já não tinham onde pousar ou razão para voar. Quanto mais longe da Terra, mais distantes do sonho de voar.
Dizem-me que hão de voltar. Tudo há de voltar. A Primavera não morreu. Estão assustados, fugiram, hão de voltar. Voltem, mas há sustos que matam. A Primavera, quando voltar, não será a mesma Primavera. Não haverá ramos para crescer nem folhas para abrir. Nem flores para florir ou pássaros para cantar. Já não têm onde pousar nem casa para habitar.

