A cozinha e o professor

Número. O professor é um número. Avaliado pelo número que atribui e pelo número que lhe atribuem.

Um professor terá, em média, 150 alunos por ano letivo. Imagina essa gente toda na cozinha da tua casa.

Não entram todos ao mesmo tempo. Entram 25, ficam 90 minutos e saem. Pouco depois, entram mais 25. E assim sucessivamente, várias vezes por dia, todos os dias.

Agora imagina que és um excelente cozinheiro e vais receber 25 convidados. Escolhes os melhores ingredientes, preparas a melhor refeição, queres que tudo corra bem. Sabes que tens 90 minutos para servir algo de que te orgulhes.

E, quando acabam, tens de recomeçar. Outro grupo, outros gostos, outras exigências.

Achas que todos vão gostar?

Uns vão dizer que está salgado. Outros, insosso. Uns que está frio, outros que está quente demais. Há quem não coma carne, quem não coma peixe, quem tenha alergias, quem simplesmente não goste.

E tu tentas. Ajustas receitas, mudas ingredientes, reinventas pratos. Procuras fazer melhor, sempre melhor. Cozinhas com cuidado. Serves com dedicação.

No final, pedem-te um relatório. Tens de explicar o que correu bem e o que correu mal. Anos depois, juntam esses relatórios e devolvem-te um número.

E assim continua, ano após ano.

Até que um dia paras.

Olhas para a cozinha, para o esforço, para tudo o que fizeste — e percebes que, no fim, não passas disso mesmo:

um número.

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