Este ministro da Educação irrita-me.
Quando eu era criança, já meio adolescente, adorava andar nos carrinhos de choque. Aquela máquina andava em todas as direções e, quando queríamos ir em frente, ela andava para trás ou para o lado, e nunca conseguíamos manter uma direção muito certa. Os encontrões eram constantes e, às vezes, magoavam. Lembro-me de sair muitas vezes da pista meio desconcertado, depois de ter aguentado tantos embates e encontrões vindos de todas as direções.
O senhor Fernando, Ministro da Educação, lembra-me um carrinho de choque. Não encontro nada mais parecido com este Ministro do que um carrinho de choque. Choca com tudo e com todos. O carrinho de choque mais desgovernado da pista — desgovernado e violento. Nunca conseguimos descobrir o que aquele intruso vai fazer a seguir e somos sempre apanhados de surpresa.
Tenho dúvidas de que este Ministro tenha tirado a carta de condução ou que seja um bom condutor. Não respeita nada e, para ele, não existem regras nem sinais. Não sei que carro é que conduz, mas deve ser um daqueles carros que, de vez em quando, passam na rua com um terço pendurado no retrovisor. Não gostava de ter algum acidente com ele, porque se farta de mentir — e com carinha de beato falso.
Uma vez disse que eu tinha perdido a aura — imaginem — porque tinha ido a uma manifestação pacífica de professores. Não me incomodou muito, porque também nunca fui dado a auras. Mas agora abusou e veio dizer ao Parlamento que há escolas com professores a mais. Pensei que pudesse ser a minha ou que talvez fosse eu um dos professores a mais. Ainda não sei, porque ele não disse quais eram as escolas. Os alunos com falta de professores também não iriam achar muita graça.
Ainda me atirou à cara que os alunos não têm nada que ler obrigatoriamente um livro do Saramago. Eu leio livros de muita gente, mas de autores portugueses só conheço um com o Prémio Nobel da Literatura. Então vamos desprezar aquele que elevou a língua portuguesa ao maior altar das letras no mundo?
Isto chateia-me. Se eu fosse um daqueles condutores violentos dos carrinhos de choque, de certeza que levava tamanho encontrão que não iria esquecer tão cedo. É que isto ofende e magoa. Magoa profundamente. Trabalhar com condições de trabalho miseráveis, com salário miserável e num sistema de ensino miserável, eu ainda aguento, mas dizer, ou insinuar, que estou a mais na escola ou que os alunos não têm que ler um livro do Saramago, ultrapassa todos os limites.
Gostava de convidar este Ministro para dar umas voltinhas numa pista de carrinhos de choque.

