França

Quando cheguei pela primeira vez a Noisy-le-Grand, nos arredores de Paris, tinha dezasseis anos. A maior surpresa e estupefacção não foi ver a Torre Eiffel ou o Arco do Triunfo. Nada me surpreendeu mais do que os próprios portugueses que ali viviam. E eram muito mais do que os estrangeiros a viver na Rua do Benformoso, em Lisboa, ou no Martim Moniz. A Avenida Stanislas Liedet estava cheia de portugueses e, quando vinha à rua, mais facilmente ouvia falar português do que francês.

A maior surpresa, e que ainda hoje ocupa um lugar importante nas prateleiras da minha memória, foi não reconhecer muitas pessoas que conhecia na minha aldeia e que só identificava quando me vinham cumprimentar. Eram portugueses emigrantes que estava habituado a ver quando vinham de férias a Portugal. Passavam o mês de agosto com roupa limpa e grande parte do dia a conversar e a beber no café.

Estes emigrantes metiam inveja a muita gente. Traziam carros e divertiam-se a apitar as buzinas, rua abaixo, rua acima, com sons desconhecidos por cá. Na altura, estávamos mais habituados aos guinchos das rodas dos carros de bois ou ao ruído de algumas motorizadas. Iam à praia da Vieira e regressavam ao fim da tarde para encher os cafés com algazarras e copos de panaché. Quando eu pedia um café ou uma imperial, raramente conseguia pagar. Algum desses emigrantes já tinha pago as rodadas anteriores e as que ainda estavam para vir.

Em Paris eram irreconhecíveis. Andavam em silêncio e trabalhavam de sol a sol. Aos fins de semana, sábados e domingos, eram dias de biscates e de trabalho ao negro. Vestiam-se mal e andavam sempre sujos, com a sujidade a que a maçonaria obrigava. Não iam aos cafés ou aos restaurantes e os carros passavam dias, semanas ou meses sem exibir os apitos ou sem sair das garagens. Eram os clochards de lá, iguais àqueles a quem chamavam clochards de cá.

Eram emigrantes. Emigrantes portugueses iguais aos actuais imigrantes estrangeiros de cá. Forçados a sair de um Portugal fascista, pobre e miserável. De um Portugal com polícia política, sem liberdade de expressão e sem pão para pôr na mesa e na boca dos filhos. De um país ignorante e marcado pelo analfabetismo. De um Portugal salazarento, esse falso jardim à beira-mar plantado. O Portugal do medo.

Talvez por isso custe perceber a facilidade com que hoje se apontam dedos aos que chegam de fora. Quem viu — ou devia ter visto — o que foi ser emigrante português em França nos anos 60 e 70 dificilmente poderia esquecer. Há memórias que não deviam ser tão curtas.

Não se trata de pedir culpas coletivas, mas de exigir alguma coerência. Os franceses agradeceram. Nós, pelo contrário, maltratamos, desprezamos e exploramos. Os emigrantes portugueses prosperaram. Nós retiramos nacionalidade, encostamos à parede e expulsamos. Muitos dos que hoje falam são filhos de emigrantes.

Portugal, altar da inveja e do racismo. Negam aos outros — aos imigrantes — aquilo que um dia encontraram e receberam no país estrangeiro que os acolheu.

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