Fascismo, educação e democracia

Quando terminei a escola primária, princípios dos anos 70, éramos trinta e dois alunos numa turma e continuaram estudos no segundo ciclo da telescola, dois alunos. No ano seguinte, ainda antes do 25 de abril, de uma turma de trinta alunos, só quatro continuaram estudos. Destas sessenta e duas crianças, apenas três continuaram e concluiram estudos superiores. Eu, a minha irmã e outro rapaz. Crianças dois anos mais velhas que eu e que frequentaram turmas semelhantes, só uma prosseguiu estudos e também era minha irmã.

Era assim nos anos do fascismo. Nada mais do que o básico e o básico era a escola primária. Mais do que isso, o conhecimento e o estudo era mal visto. Estudante era sinónimo de malandro e malandro, sinónimo de quem não queria trabalhar. 

Tivemos o 25 de abril de 1974 e o início da democratização da escola. Durante alguns anos vivemos essa esperança e a escola e o conhecimento democratizaram-se. Reconheço que sou um dos privilegiados dessa esperança e agradeço ao meu país a concretização de muitos sonhos que a universidade me facilitou.

Entretanto, alguém deve ter reparado que o conhecimento era muito perigoso e que era muito mais fácil controlar uma sociedade se a mantivéssemos ignorante e alienada, tal como em outros tempos, com Fátima, futebol e fado. Regressar ao passado recente e fechar escolas já não resultava. O povo já frequentava os liceus e as escolas industriais. Muitos alunos já conseguiam o acesso à universidade ou a escolas chamadas superiores. Outros caminhos se impunham para não perdermos a face, e o voto, da democracia.

Esses caminhos começaram a desenhar-se nos anos 90,  com alguns facilitismos nas escolas, mas foi sobretudo na segunda década deste século XXI que teve início o feroz ataque à democratização do ensino público e do conhecimento. 

Há 50 anos atrás, possuir um diploma da quarta classe, era tão ou mais importante que possuir hoje um diploma do décimo segundo ano ou até, em muitos casos, um curso superior. Dava mais oportunidades de trabalho e de salários mais dignos. Hoje, o décimo segundo ano e muitos cursos superiores são um ótimo passaporte para o desemprego, para o salário mínimo ou para a emigração. 

Então, fazer o quê? Como? O que é que aconteceu? O que é que falhou?

Nestes últimos 15 ou 20 anos, venderam-nos a ilusão da igualdade, da equidade, da inclusão e de que ninguém ficava para trás. Mas fica. Fica mesmo para trás. Garantia de algum sucesso na vida, já não consiste na escolaridade obrigatória, estudar até aos 18 anos, um absurdo, nem na frequência de muitas universidades amigas dos baixos salários. Tal como nos tempos do fascismo, o sucesso voltou a estar acessível apenas a uma minoria, a uma elite privilegiada que pode pagar os estudos no estrangeiro, ou nas melhores escolas privadas e nas melhores universidades, públicas ou privadas mas com criteriosa seleção dos candidatos à sua frequência.

Não temos qualquer dificudade em demonstrar que as actuais gerações, apesar da frequência aparentemente democrática das escolas ou universidades, não têm qualquer razão para encarar um futuro com esperança. As escolas públicas transformaram-se em verdadeiras máquinas de funcionamento e produção industrial de ilusões. 

2 opiniões sobre “Fascismo, educação e democracia

  1. Um cenário verdadeiro que me aterroriza enquanto Professora, mas muito mais como mãe.

    Gerações de incapazes, incultos e de uma inconsciente dormência.

    Uma tragédia…

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