Não, não é o mesmo. Todos os dias há alunos que não levam os livros de algumas disciplinas para a escola.
Este, há muito tempo que não trazia e apresentava sempre a mesma desculpa.
– Não sei dele, stor.
E não adiantava insistir. A resposta era sempre a mesma. Naquele dia, eu tinha de saber a verdadeira razão. No final da aula, enquanto todos saiam, chemei-o e perguntei-lhe se podia falar com ele. Aluno do 6° ano de escolaridade. Aceitou e falámos, não mais de 5 minutos.
A conversa foi mais ou menos assim e comecei eu:
– Sabes que há muito tempo que não trazes o livro. Assim é mais difícil aprenderes, não achas? Não me queres contar como é que perdeste o livro?
– Ó stor, eu não o perdi. Eu disse que tinha perdido porque não lhe queria dizer a verdade.
– Então, e qual é a verdade, queres dizer agora?
– Ó stor, a verdade é que foi a minha mãe que o pôs no lixo.
– No lixo?! Não pode ser!
– Pode, pode stor. A minha mãe é doida.
– Olha, estamos a falar a sério. Não se fala assim da mãe. Tenho a certeza que a tua mãe gosta muito de ti.
– Não stor. Ele bate-me muito. Mas agora eu já não vivo com ela, vivo com o meu pai. Não é bem com o meu pai, é mais com a minha avó.
– Está bem, estou a perceber. Os pais às vezes separam-se. Mas pelo menos agora estás bem com a tua avó. Tenho a certeza que ela te adora.
O miúdo olhou para mim, ar muito sério mas hesitante. Rapidamente ganhou coragem e continuou.
– Stor, eu não estou nada melhor com a minha avó, ela está sempre, sempre, sempre a ralhar comigo.
– E não é porque te portas mal? O que é que tu andas lá a fazer em casa? A tua avó não te ralha sem mais nem menos…
– Nao, stor? Não ralha? O stor havia de ver.
– E como é que tu te portas lá em casa? Diz a verdade, sabes que eu não te ralho.
– Sei, stor. Mas eu… ó stor, eu acho que me porto normal.
O tom de voz e a expressão eram convincentes.
– Eu não acredito que a tua avó te ralhe assim, sem mais nem menos…
– Não acredita stor? Não acredita?!!! A minha avó ralha tanto, tanto, tanto stor!!! Stor, a minha avó até ralha sózinha com ela própria!!!
Claro que isto parte o coração de um homem. Nem sempre é assim, felizmente.
Mas esta também é a escola real. Aquela escola que não passa nas televisões nem nos discursos dos ministros.
