Desmantelar. parte 3. O que não se pode desmantelar, porque nunca existiu. Faz frio, stor.

Não vamos morrer congelados, mas, em dias frios, quando chego à escola, já sinto a alma a tremer.

“Ó stor, aqueça-me as mãos.” E às vezes aqueço. Costumo ter sempre as mãos quentes. Alguns alunos trazem luvas, mas não ajuda nada a folhear o caderno e os livros. Também não ajuda nada na escrita, porque não agarram muito bem a caneta.

Algumas alunas, são mais as meninas, trazem uns mantos quentes e fofinhos. Embrulham-se neles, mas parecem mais preocupadas em proteger-se do frio do que com o trabalho da aula. Eu tento animá-los e fazê-los esquecer aquela realidade, mas logo oiço uma vozita, “mas ó stor, está muito frio.” E está. Eu também sinto frio. Sobretudo nos pés. É desagradável e uma das fortes razões para a desconcentração.

A sala, tem paredes em tijolo, aquele tijolo de burro, muito usado nos anos oitenta. E mesas e cadeiras. Não muito novas e conforto não têm nenhum. O teto é em cimento armado e notam-se ainda os moldes das tábuas que seguraram o betão. Tem umas janelas, agora de vidro duplo, mas não abrem, o que no verão também não ajuda nada. Ainda tem uma pequena secretária do professor, em ferro, onde pousa um computador e onde quase não cabe mais nada.

Não, não há aquecedores, a instalação elétrica não comporta.

E, depois, os professores mostram descontentamento e falam e até escrevem, alguns, como eu faço agora. E falam mal dos ministros e pedem respeito e dignidade e eu nunca tive a certeza se, realmente, as pessoas nos entendem. Nem agora nos entendem?

E, se de repente, lhe oferecessem uma tv de 55′ toda moderna e ultra HD e uns computadores portáteis e internet e uns tablet, e uns projetores… para colocar numa casa pobre, onde parece faltar tudo, exceto a família reunida num espaço onde não apetece viver? Não preferia antes que lhe aferecessem um arranjo à casa, e deixá-la com algum conforto? 

Pois é, custa-nos muito aceitar o discurso dos Ministros a tentar mostrar o melhor dos mundos com uma escola digital. E eu que sempe fui apaixonado pelo digital. Agora, só se fala em digital. Exames digitais, testes digitais, manuais digitais… fico ainda com o desconforto por saber que alguma coisa está errada. Não será porque começam a casa pelo telhado?

Fala-se, porque temos eleições próximas, que vão pagar faseado aos professores e que não pode ser tudo duma vez, o importante é tentar mitigar o problema. Sugiro, que mitiguem o problema do frio e desconforto e construam, faseado, escolas com salas de aulas com algum conforto e com alguma dignidade. Não merecemos?

Em dias frios gosto muito de estar à lareira, mesmo numa casa velha. Prefiro, a uma casa gelada toda mobilada e engalanada com tecnologia digital.

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