A estação de serviço.

 Entrei numa estação de serviço e melhor seria não tivesse entrado.

Do lado de trás do balcão uma senhora berrava em voz alta: “Aquilo não são pessoas, aquilo não são pessoas! Aquilo são aberrações da natureza, aberrações!” Referia-se, claramente, à etnia cigana.

Era o único cliente àquela hora e, quando saí, olhei bem à minha volta para tentar compreender as razões de tanta fúria que fervilhava do outro lado do balcão. Ninguém. Eu era mesmo o único cliente. Entrei no carro e esperei um pouco. Um deserto à minha volta. E lembrei-me de uma aluna de etnia cigana que tive há 4 anos atrás. Uma daquelas alunas que ficam gravadas a ferros nos freios da memória de um professor. Durante todo o ano letivo, estava 8 horas por semana na minha sala de aula, nunca lhe consegui arrancar uma palavra ou ouvir uma sílaba. Apliquei todas as estratégias disponíveis na ciência pedagógica, mas nenhuma funcionou. Nem uma sílaba. Só baixava a cabeça para cima e para baixo ou para a direita e esquerda para dizer sim ou não. 

Aquela aluna não era portadora de qualquer deficiência física ou mental. Fui compreendendo ao longo do ano letivo que o único fardo que aquela criança de etnia cigana transportava, era o fardo do preconceito, do mito e da incultura. Seria esta aluna a tal aberração da natureza a que se referia a outra senhora do lado de dentro do balcão?

Ainda pensei sair do carro e perguntar quem eram essas aberrações da naureza que tanto a incomodavam. Não fui. Afinal, se durante séculos este preconceito se manteve sempre vivo, quem era eu para o eliminar numa discussão com uma pessoa furiosa? Eu queria perguntar àquela mulher se lhe tivessem assaltado a loja dois ladrões da sua etnia ela tambem lhe chamaria aberrações da natureza.

Ainda me lembrei de tantas crianças de etnia cigana que frequentam as escolas deste país, algumas minhas alunas e alunas de colegas meus que precocemente abandonam a escola. Muitas não voltam mais e duvido que alguma vez entrem nas estatísticas nacionais enviadas para Bruxelas e outros departamentos europeus muito importantes. 

A escola não tem poder para resolver aquilo que as sociedades, ditas civilizadas, consideram aberrações da natureza. Os políticos também não e alguns ainda se mostram muito empenhados em considerar seres humanos aberrações da natureza.

Quando isto acontece, fica aberta a caixa de pandora e entramos todos no mesmo mundo das aberrações humanas.

4 opiniões sobre “A estação de serviço.

    1. Sim, claro! Mas, infelizmente, todos sabemos que uma boa parte da Humanidade não se fica pelas palavras ameaçadoras, alimenta outros de ódio e intolerância, consumando atos impensáveis e difíceis de descrever por palavras. Combater o COVID parece tão mais fácil quando comparamos com este tipo de pandemia de ódio entre seres humanos, não de vírus contra humanos. O pior dos vírus é mesmo a espécie humana. Há que denunciar e mostrar que a maldade está nos humanos, não nos outros animais.

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  1. Sem dúvida. A covid era bem mais fácil de combater. É que ninguem nos obriga a gostar de quem não queremos. Mas não gostar é uma coisa, odiar é outra. Os novos tempos ajudam e a comunicação social também, a dar tanta voz a partidos geradores de ódios.

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