REFERÊNCIAS
Cresci numa aldeia e num ambiente histórico e cultural de famílias numerosas. Eram vulgares os agregados familiares com cinco, seis, ou até dez e onze filhos. Viviamos alienados na cultura dos filhos como investimento e no “crescei e multiplicai-vos.” As famílias privilegiadas assim o exigiam e a igreja católica precisava de freiras nos conventos e frades nos mosteiros. Era vulgar, em Lisboa, encontrar uma dessas famílias com quatro ou cinco criadas de servir nos anos que precederam o 25 de abril. Por outro lado, poucas eram as famílias que não ambicionassem ter um filho padre ou uma filha freira.
As famílias numerosas funcionavam como suporte de um estado ditatorial e conservador interessado em não abdicar dos privilégios consagrados na tradição e na constituição da República, assim como no suporte ao fornecimento de carne humana para os canhões que estrondeavam nas nossas ex colónias. O sistema militar português recrutou e enviou para as suas colónias cerca de 500 mil soldados. Tantos como os americanos para o Vietname.
Ao contrário do ambiente histórico e cultural desses tempos em que a democracia era uma miragem, vivemos hoje e desde 1974 num progressivo enriquecimento económico, ainda que a riqueza criada pelos trabalhadores não seja justamente redestribuida. As famílias numerosas deixaram de fazer parte do nosso quotidiano e convivemos num ambiente familiar de um ou dois e raramente três filhos. O que antes tínhamos por excesso, temos hoje por carência.
A verdade é que a qualidade de vida da generalidade das famílias portuguesas é hoje incomparavelmente melhor do que em todos os anos antes do 25 de abril. Esta realidade parece incomodar alguns sectores sociais a quem nos últimos anos não tem faltado palco, sobretudo nas televisões.
Vítimas de uma ideologia dominante e saudosista desse passado de privilégios, somos hoje confrontados com um regresso ao passado, como se esse passado fosse orginalmente divino, justo, moral e eticamente mais humano. A resistência não é fácil e a luta é desigual. A máquina de propaganda da direita ultraconservadora está bem oleada e não falta dinheiro para a sustentar.
Muitos países tiveram o seu 25 de abril e nós tivemos o nosso. Outros ainda lutam para conseguir o deles.
É uma obrigação ética e moral de cada um de nós lutar e defender o valor das liberdades individuais e coletivas sem nos deixarmos corromper pelos populismos de gente fanática, desonesta e mentirosa que prega um paraíso que nunca existiu nem alguma vez poderá existir.
Nada está garantido na vida e o que conquistámos ontem podemos perder amanhã. Em política, não funciona o dito popular “casa roubada, trancas à porta.”

Tudo bem. Tudo certo. Mas acontece que o capitalismo selvagem que nos (des)governa já decidiu que isso dos valores, democracia, justiça social e coiso e tal, são coisas do tal passado mítico que é forçoso enterrar mesmo. Logo…
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