Numa aula

Quando uma aluna na aula de História afirmou com toda a convicção que os indianos sequestravam crianças em Portugal,  eu parei, calei-me e fiquei imóvel. 

– É verdade, stor! Eu vi na televisão! Raptaram crianças em Braga!

Antes da aula ter terminado já tinha decidido investigar e saber da veracidade ou falsidade daquela afirmação tão convicta. Trabalho realizado e só consegui encontrar rumores e notícias falsas que circulam nas redes sociais. Não há, nem nunca houve, qualquer registo de crianças raptadas por indianos em Portugal. 

– Nós temos medo, stor, e são muitos e eles olham para nós e perseguem-nos.

Se o professor o tivesse permitido, dava a sensação que muitos alunos daquela turma poderiam fundar naquele momento um movimento de contestação nacional contra os indianos perseguidores, violadores, sequestradores e sei lá que mais.

Investiguei e tentei obter informações das mais variadas fontes. Nem uma queixa apresentada em qualquer esquadra policial deste país. Nenhum caso de violação ou de qualquer tipo de assédio.

– Sabem que o vosso concelho da Marinha Grande, de acordo com as últimas estimativas, não tem mais de 900 indianos aqui a residir?

Alguns miúdos riram-me muito e um deles tomou imediatamente a palavra, esquecendo a regra de pôr o dedo no ar antes de falar.

– 900, stor? 900? – e ria,  descontroladamente, numa atitude provocadora. Na sua perspetiva, o professor só podia estar doido. 

– 900, é impossível! São muito, muito mais, mas muito mais! Olhe stor, o meu pai contou-os todos ontem e só  numa estação de gasolina estavam 10!!! 10, stor, todos juntos! 

Xenofobia não é uma palavra qualquer. É a linguagem do ódio e da violência. Da discriminação e da ignorância. Xenofobia é um furúnculo social que expele pus por todos os poros. É um tumor a exigir tratamento urgente.

Que educação estão os pais a transmitir em casa aos seus filhos?

10 opiniões sobre “Numa aula

      1. Viva, Agostinho. Obrigado. Continuarei, sim. São muitos anos, 20, de blogue. Tento ser disciplinado. Os textos no Público é para me moderar no blogue. Mas não estava a consegui comentar aqui nem no blogue do PGuinote. Encontrei esta forma. Funciona. Voltarei. Abraço.

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  1. Numa das vezes que comentei a correr num blogue do WordPress, registei-me e comecei a receber emails e por aí fora. E sempre que tentava comentar tinha que repetir os dados. Só que a password foi escolhida pelo algoritmo e não terei pedido para guardar. :)) Agora, enganei-me no e-mail; em vez de .pt meti .pr e consigo sem qualquer password. Comecei a passar aqui por causa de algo que disse publicamente sobre os sindicatos e que um dia te explicarei em privado. Aquele abraço.

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  2. Agradeço a tua gentileza.

    É normal e até saudável não concordarmos em tudo. Talvez eu tenha sido um pouco injusto, ou duro, nas observações que fiz. A verdade é que levo os teus textos muito a sério e só tenho pena que não escrevas mais. Eu admiro-te.

    um forte abraço

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    1. Já agora, meti o teu blogue na lista de blogues sugeridos do meu. Sei que é um hábito antigo :)). os blogues são uns clássicos. Forte abraço também.

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  3. Lembrei-me nestes dias desse contraditório porque estou a terminar um texto para o Público que tem uma passagem crítica de alguns sindicatos que acaba por ser para todos. Mas depois lês:)) forte abraço.

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    1. Quero é que consigas mais um grande texto como tens conseguido. Eu assino o PÚBLICO e faço questão de enviar os teus textos para centenas de professores. Do Paulo Guinote também. Obrigado. Nunca te esqueças que os professores precisam muito de ti.

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