Ladainhas e benzelhices

As ladainhas podem ser textos muito bonitos, com palavras muito lindas, mas não dizem nada.

As ladainhas dos novos sábios da educação são a mesma coisa. Benzelhices. As benzelhices enquadram-se perfeitamente no pensamento dos iluminados e conselheiros para a educação. Todos muito bem falantes em púlpitos homologados por um qualquer doutoramento de uma universidade da esquina.

Benzelhices para afuguentar as bruxas:

“Deitam-se numa telha brasas bem acesas e sobre elas lançam-se alguns ramos de alecrim bento e de louro, uma mão cheia de sal e um fio de azeite da lâmpada do Santíssimo Sacramento. Defuma-se a casa três noites seguidas, ao dar da meia-noite e depois deitam-se as brasas ao mar.”

E acabaram-se as bruxas. Coitadas das bruxas. Isto não se faz e eu até acho as bruxas simpáticas. O discurso de alguns conselheiros, doutores em ciências da educação, é em tudo semelhante. Aplicam uma linguagem barroca, muito rendilhada, mas toda ela destituída de qualquer significado e desenraizada da realidade das escolas e de quem lá trabalha todos os dias. Em nada contribui para a qualidade das aprendizagens e só serve para gerar confusões e conflitos.

Dizem, por exemplo, com palavras muito pomposas, que as aprendizagens nas escolas melhoram com a descentralização. Dizem que é necessário transformar a gramática da escolarização. E o que é que isto significa? Nada. Não significa nada. Dizem muitas coisas que não significam nada. Dizem tudo o que não significa nada. Nada! Vazio. Vazio retórico. Também vão exigir conselhos municipais para a saúde? 

Então, porque o dizem? É o ataque à escola pública, semelhante ao ataque ao SNS. “Queres saúde? Paga-a.” Queres Educação? Paga-a. A escola empresa. A escola dos conselhos municipais de educação. Já só faltam os conselhos municipais para a saúde e a câmara municipal a gerir hospitais. Como se as câmaras municipais compreendessem melhor as dinâmicas pedagógicas das escolas do que os professores. Como se os funcionários das câmaras municipais compreendessem melhor o funcionamento das escolas do que os professores. É o ataque à escola pública  mais estúpido de que tenho memória desde que sou professor.

Estão preocupados com aprendizagens mais eficientes? Estão mesmo? Comecem por destruir muitas barracas e construam escolas dignas. Revoguem a autocracia e devolvam a democracia às escolas. Revoguem a vergonhosa avaliação docente. Devolvam aos alunos aquilo de que tanto precisam: disciplina e condições dignas de aprendizagem dentro das salas de aula.

Benzelhices com efeitos nefastos para os alunos, professores e escola pública de qualidade. 

https://www.publico.pt/2093472

6 opiniões sobre “Ladainhas e benzelhices

  1. Certíssimo! Na mouche! Mas há a considerar um outro factor da maior importância. Os media corporativos têm vindo a especializar-se nas estratégias do “afunilamento”, ou seja, em agitar as águas apenas naqueles temas autorizados. Aí promovem muitos debates, contratam muitos especialistas, arrebanham muitos comentadeiros de serviço para promover sempre os mesmo jornalixos e fazer passar a narrativa dominante, dando uma aparência de variedade, quando todos dizem sempre as mesmas baboseiras, o mesmo paleio pseudo-científico, as mesmas boutades lapalissianas. Por outro lado, os temas realmente importantes são sempre varridos para debaixo do tapete. Falo é claro da gestão democrática, dos estúpidos mega-agrupamentos, da responsabilização dos dirigentes e de tantos outros aspectos sempre ausentes das abelhinhas Maias e Cª.

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  2. Nem mais! Numa palavra, eu diria devolver as escolas aos professores e os diretores/presidentes/… serem professores eleitos pelos seus pares. E sim, concordo com o fim dos mega-agrupamentos.

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  3. É muito difícil dizer tudo em pequenos textos. Vamos tentando aos poucos o tanto que nos atormenta e falta ainda denunciar. Pessoas como o José e a Paulinha fazem muita falta nas nossas escolas. E na denúncia. Resistiremos. Nunca desistimos.

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  4. Caro Agostinho, acabei de “te descobrir” e fica sabendo que gosto muito do que escreves… 🙂 Parabéns!

    À excepção de quando enveredas pelo “dogmatismo de esquerda/sindical”, temos muitas opiniões em comum e tu bem o sabes… 🙂

    Que possamos continuar, por muitos anos, a concordar e a discordar um do outro…

    Paula Dias

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  5. Paula, bem ou mal, faço o meu melhor na defesa do prestígio da nossa profissão e da escola pública. Obrigado pelo teu apoio.

    Não te preocupes com os desacordos. Eu só fico precupado quando concordam sempre comigo. Os desacordos interpreto-os sempre como fonte de novos conhecimentos e de visões diferente das coisas. Mal de nós quando todos concordarem com tudo.

    Quanto aos sindicatos, na realidade, sou mais pragmático que radical. Embora admita que possa não parecer. Precisamos de sindicatos fortes. Sem eles não será nunca fácil a nossa luta. E é essencialmente essa a minha ambição. Sindicatos fortes. Agora, esquerda ou direita… terá que ser cada um a optar em liberdade. Sim, com todos os defeitos, acredito muito mais num sindicato de esquerda que num sindicato de direita. Mais por pragmatismo que por qualquer outra razão.

    Sim, esperemos que por muitos anos.

    Ah, para a próxima quero que discordes do meu texto, se leres, claro. Eheheheh.

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