A escola e a padaria da minha aldeia

Quando há cerca de meia dúzia de anos abriu uma padaria na minha aldeia eu fui dos primeiros a imaginar que não estaria aberta por muito tempo. É certo que esta aldeia tem resistido heroicamente ao desastre nacional da desertificação dos meios rurais. Mas não é menos certo que, à falta de clientela, tinha de fechar. Não fechou e mantém-se aberta. Aberta e com enorme sucesso.

Os proprietários não pertencem aquela geração Z e não foram vitimas da escolaridade obrigatória até aos 18 anos. A infantilização institucionalizada da idade adulta. Também não aprenderam na universidade as técnicas  modernas e ultramodernistas dos negócios e do marketing. Então, a que se deve tão estrondoso sucesso, capaz de me obrigar a fazer 50 kms. para comprar o pão que todos adoramos à mesa?

Se abrisse uma escola secundária na minha aldeia com a mesma qualidade do pão que sai daquela padaria, estou convicto de que também não faltariam clientes e teríamos uma escola de sucesso. Bem sei que não se trata da mesma massa, mas também sei que, qualquer massa devidamente tratada, produz bom pão.

Para os mais distraídos, e não vem daí mal ao mundo, é que sinto algumas náuseas quando são publicados rankings de escolas e temos fatalmente as escolas privadas no topo com mais sucesso. E, mais náuseas sinto quando o argumento invocado para esta discrepância (não gosto desta palavra) é que tudo se deve ao meio exterior e que as escolas públicas aceitam tudo e as privadas só a nata. É verdade, mas não explica o essencial. Muito longe disso. 

Se a padaria da minha aldeia funcionasse com os mesmos critérios com que funcionam actualmente as nossas escolas públicas, já estaria fechada há muito tempo. Ninguém gostaria muito de degostar o sabor daquele pão. Estava condenada ao fracasso, condenada ao insucesso.

Quando todos despertarmos desta dormência e desta irresponsabilidade do experimentalismo e do facilitismo, muito típico português, talvez se comece a produzir bom pão também nas escolas. 

Com uma certeza: a qualidade e o sucesso não se conseguem por decreto ou por coação. 

3 opiniões sobre “A escola e a padaria da minha aldeia

  1. Bem visto! Adorei o exemplo do sucesso da padaria em comparação com a falta dele nas escolas! É caso para dizer que precisamos de boa Educação “como pão para a boca.” Ainda bem que a padaria não só não fechou como ainda se revelou um exemplo de sucesso.

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  2. Só discordo do Agostinho num ponto, quando diz que o facilitismo é típico do nosso povão. Muitos recordarão os tempos em que ninguém falava de facilitismo no ensino. A coisa só se intensificou a sério com a ascensão do “animal feroz” mais a sua comissária política, tendo lançado a escola pública naquele plano inclinado que veio a descer até hoje. E o novo ocupante da 24/Julho promete zero reformas de fundo, apenas uns remendos para que tudo fique na mesma, ou pior ainda se for possível.

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