Uma escola não é um super ou um hipermercado.

Este será um texto “chato”, mas é assim o retrato da nova escola inovadora em Portugal. O atual governo deu continuidade e até pretende aprofundar todas as políticas educativas do anterior governo. Para a educação e escola pública, são fruta do mesmo cesto. Fruta podre, para que não restem dúvidas sobre o que penso da pretensa nova escola inovadora, do presente e do futuro.

PPIP, uma sigla fantástica que significa Projeto Piloto de Inovação Pedagógica. Foi criado pelo anterior governo e agora revisto e aumentado para os cursos científico-humanísticos e profissionais do ensino secundário. Se a primeira versão, aplicada ao segundo e terceiro ciclos, há muito considerava um verdadeiro e autêntico desastre nas escolas, esta nova versão de PPIP II, não me parece melhor, de acordo com a literatura disponível que consultei e li.

A linguagem argumentativa que sustenta esta pretensa inovação pedagógica, é uma relíquia literária de estilo barroco, ornamentada com termos e conceitos cheios de brilho dourado, mas vazios de significado. Deslumbra, seduz, mas não convence. Semelhante a algumas ferramentas que já comprei, de aparência sedutora e funcional, mas que só uso uma vez. À segunda, está no caixote do lixo.

Já escrevi e já disse o que pensava sobre uma dessas novas disciplinas deste PPIP II. “Literacia Financeira”. Não é filha única e tem uma outra irmã chamada de “Projeto Pessoal.” Então, e o que é que tem de tão inovador este “Projeto Pessoal”? 

Trata-se de uma nova área curricular que visa o “aprofundamento dos conhecimentos, capacidades e competências previstas no Perfil dos Alunos, nas AE e na Estratégia Nacional de Educação para a cidadania, através da conceção, implementação e avaliação de projetos aplicados, por parte dos alunos”.

Perceberam? Compreenderam? Eu não. E, se compreendesse, não saberia explicar. Quais estratégias? Quais conceções? Quais projetos? Os sábios, os novos estrategas da inovação, sabem e têm a gentileza de explicar: “Estes projetos podem ser de natureza científica, tecnológica, artística, social, cultural ou outra, a aprovar pelo respetivo conselho de turma”

Perceberam? Não? Desta vez eu explico porque percebi muito bem. Percebi que os professores, já sobrecarregados de trabalho, e com pré-avisos de greve ao sobretrabalho, vão ter mais trabalho na análise e aprovação desses inovadores projetos, tal como já aconteceu no anterior PPIP.

Percebi que esses projetos podem ser tudo e podem ser nada. Podem ser à la carte, à vontade do aluno, dos poucos que ainda tenham alguma vontade. Vão à prateleira do supermercado, olham, acham giro e compram. O conselho de turma ou o diretor depois aprovam.

Percebi que os alunos fazem o que querem, como querem e quando querem e nem eles saberão bem o quê.

Percebi que não foi designada nenhuma área de formação específica para os docentes que irão lecionar esta inovadora disciplina. Quem serão os contemplados? Qualquer um? Escolhe o ministro? ou o diretor da escola ou agrupamento, ao seu belo gosto, desejo e prazer?

Mas há mais, muito mais. Esta nova área curricular terá “classificação final no ano terminal da mesma e contempla a realização de uma prova de aptidão pública”. Esta prova aqui referida é mais conhecida por PAP. Fica-se com a falsa sensação que vai ser alvo de uma avaliação em praça pública, com advogados e juízes. Uma avaliação de rigor e qualidade. Nada mais errado. Não afirmo, mas nunca conheci uma PAP com avaliação negativa. Já vi Provas de Aptidão Pública que até o papel eu lamentei ser gasto daquela maneira.

Objetivos de todo este disparate inovador? Uma pérola literária: “… que aumentem o sucesso e a equidade, acompanhando as rápidas mudanças na sociedade, como o conhecimento em constante revisão, a globalização e o uso crescente de tecnologias digitais”.

Compreenderam? Não? Desta vez também não. Não sei se estarão a falar do TGV ou dos F16. Talvez essa disciplina tenha ainda alguma utilidade se ensinar também a fazer filhos. Bem que precisávamos de aumentar a natalidade.

2 opiniões sobre “Uma escola não é um super ou um hipermercado.

  1. Os presidentes de câmara municipal colocam placas de mármore nas rotundas das estradas, por que é que os jubilados pedagogos e os altos cargos dirigentes do ministério da educação não podem fazer reformas e contra reformas e mais…qualquer coisinha que “os vá da morte libertando”?

    Ora, ora, a democracia a funcionar (onde é que já ouvi isto?)

    Gostar

Deixe uma resposta para José Manuel Nogueira Cancelar resposta