O púcaro e a escola 

Para não faltar à verdade, estou farto de ouvir falar que faltam professores nas escolas. É um assunto que já me agonia. Desconfio que não seja só a mim. Os portugueses também devem estar todos agoniados. E não é sem razão, porque o que interessa é que a juventude esteja toda do lado de dentro das grades da escola e não chateiem muito lá em casa. Os pais têm mais que fazer e os professores que cuidem dos filhos.

Fartos de estarem calados durante 50 anos de ditadura fascista, os portugueses ganharam o gosto pela palavra e falam pelos cotovelos. O problema é que falam muito e fazem pouco. E falam quando não devem e calam-se quando deviam falar. É um gozo triste ouvir falar os antigos ministros da educação. Quando vão à TV falam como se nunca tivessem sido ministros e não tivessem nada a ver com o assunto da falta de professores. É esmagador ouvi-los, por isso deixei de os ouvir. 

Os professores andaram anos a caminhar para Lisboa e a manifestarem-se frente às escolas, chovesse ou fizesse sol, a exigir respeito. O défice de respeito pelos professores e pela escola pública era gritante. Um défice muito superior às nossas contas públicas. Os ministros fingiam ouvir e, às vezes, nem isso faziam. Contra-atacavam, aumentando o défice de respeito, como se os professores fossem os inimigos públicos do país e uma classe de trabalhadores a abater. Abateram tanto que já não há professores nem quem queira ser professor. Se fosse jovem, também não queria.

Os comentadores nas TV e nos jornais eram todos muito sábios e especialistas e todos afinavam a conversa pela cartilha do poder. Há muito poucos anos faziam coro com o senhor ministro Crato, que havia professores a mais em Portugal e, até o senhor Passos, Primeiro Ministro, mandou os professores emigrar. A senhora Maria de Lurdes, a primeira assassina do respeito pelos professores e pela escola pública, afirmou na TV que não sabia como se tinha chegado até aqui e nem queria saber. Os encarregados de educação foram dos poucos que manifestaram o seu apoio aos professores , como mostrou uma sondagem com cerca de 74% a favor das nossas reclamações. Mais do que a maioria dos diretores de escolas, interessados em manter-se no poleiro e com pouca ou nenhuma vontade de voltar às salas de aula, que é lá que a coisa dói. 

Farto de tanta conversa, farto de tantos sábios inovadores, farto da tanta falta de respeito, farto de tantas inovações, farto de tantas mentiras e de tanto cinismo, farto de tanto oportunismo e de tantos oportunistas, farto de tantos diretores a apoiarem a municipalização e a descentralização… (entenda-se descentralização como multiplicação de contratos municipais, como tão bem esclareceu o colega Paulo Guinote.), farto de tanta falta de seriedade e honestidade, farto e cansado de ver governos com palavras mansas, como o atual, para esconder o quanto repudiam a escola pública, em favor da privada, farto… farto… farto de tanta mentira e incompetência…

Deixei de acreditar e lembrei-me do púcaro cheio de alcatrão para tapar os buracos das estradas quando eu era ainda rapaz jovem. Nunca tínhamos estradas de jeito e, por mais buracos que tapassem com o púcaro cheio de alcatrão, tínhamos sempre estradas cheias de buracos. Temos ministros que são uma espécie de cantoneiros e escolas como estradas sempre cheias de buracos. Talvez seja esse o nosso destino: tapar buracos para fingir qualquer coisa.

4 opiniões sobre “O púcaro e a escola 

  1. Pois mas em muito lado as estradas portuguesas tal como a educação continuam com buracos e só vão levando remendos em cima de remendos que pioram ainda mais a situação … tal como na educação! Quanto à falta de professores também estou farta de ouvir porque me angustia. Angustia porque ainda me faltarão uns bons anos para chegar à reforma e tenho muito receio que se aproveitem de nós, os que ainda não podem ir embora, e nos sobrecarreguem para tapar a falta de professores…

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  2. Acho que temos de ver o lado positivo das coisas. Apesar de tudo, “o melhor do mundo são as crianças “. Apesar de tudo, porque algumas já são pouco recomendáveis.

    Estás jovem, não percas a esperança. Eu estou mais próximo, mas sinto a tua angústia. Não pela idade, mas pela degradação de tudo o que respeite a escola. É preciso muita coragem para ser hoje professor. Não é por acaso que faltam professores, todos sabemos que não. Enquanto puder, nunca desistirei de lutar pela nossa escola pública.

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