E agora, o que é que eu faço?

Espero não escandalizar ninguém. Durante décadas, defendi e afirmei que, se tivesse filhos em idade escolar, os colocaria numa escola pública. Mudei de opinião. Não porque não defenda a escola pública. Eu defendo-a, com unhas e dentes. Não porque seja contra a escola privada. Trabalhei lá 9 anos e mantenho as melhores recordações. Não porque eu tenha mudado e perdido o sentido da coerência. Nada disso. Eu mantenho-me coerente. Quem perdeu a coerência foi a escola pública, e não foi por acaso. Porque nada acontece por acaso.

Hoje, se tivesse filhos em idade escolar, pensaria duas vezes na escola onde os iria colocar. Na escola pública, reina a lei da selva. A autocracia, a arbitrariedade, a desregulação, a desresponsabilização, a burocracia idiota, o miserabilismo, a confusão, a incompetência, o oportunismo, o laxismo, o seguidismo, a flexibilidade ridícula, o discurso bonito e vazio, ilegalidades impunes, impunidade, experimentalismos saloios e vaidades quanto baste, falta de condições de trabalho ou condições de trabalho piores que as do século passado,  inovações parvas, o facilitismo ou o sucesso gratuito… Colocaria o seu filho numa escola destas? Não pensaria duas vezes? Eu pensava.

Os professores? Os professores são a única garantia que ainda consegue manter de pé a escola pública com alguma dignidade e qualidade. São uns heróis. E, não esquecer que, professor, é aquele que entra na sala de aula e faz tábua rasa de tudo o que ficou exposto no segundo parágrafo deste texto e se entrega de alma e coração ao trabalho com os seus alunos. Os outros, os que não entram na sala de aula, são os burocratas. Aqueles que obedecem cegamente aos diplomas de governos que apostaram na descredibilização da escola pública. Os colégios, privados e caros, estão cheios. As escolas privadas proliferam.

A escola pública-capela. Cada escola ou agrupamento, a sua capelinha. E a minha capelinha é melhor do que a tua. Na minha, avalia-se semestralmente, tu estás ultrapassado, tens de inovar. Na minha, os alunos têm férias agora, quando têm na tua? Ah, ainda se reprova na tua escola? Na minha, isso está ultrapassado, ninguém reprova. Ainda dão negativas e fazem testes? Mas isso está mais que ultrapassado, atualiza a tua escola. Na tua escola os professores ainda estão congelados? Ainda não recuperaram nenhum tempo de serviço? Que horror, no meu agrupamento alguns já receberam. Na tua escola os conselhos pedagógicos têm algum poder de decisão? Não faças isso, na minha escola quem manda sou eu. Ainda fazem processos disciplinares a alunos mal-educados? Coitadinhos, não faças isso, eles são vítimas da sociedade…

Sucesso, inclusão e igualdade de oportunidades não se oferecem. Conquistam-se. Exigem responsabilidade e trabalho. Exigem uniformidade de critérios, porque um aluno em Faro não é diferente do seu colega de Caminha ou de Freixo de Espada à Cinta. Saber ler, escrever, interpretar, compreender, refletir, criticar, jogar ou brincar, são necessidades universais. Crescem os fanatismos religiosos e políticos e a escola pública ficou despojada das necessárias ferramentas de combate. Roubaram-nos a escola pública e deixámos que nos mentissem.

6 opiniões sobre “E agora, o que é que eu faço?

  1. Olha que não marx. Podes ter razão mas eu não me fixo em microcosmos. E tudo o que escrevi ainda ficou muito aquem daquilo que eu conheço no universo das nossas escolas.

    Deixo-te um exemplo e não é da Marinha Grande.

    Então estás doente outra vez? Outro atestado médico? Quando é que metes um atestado para sempre e não voltas mais à escola? Palavras de um diretor para um professor realmente doente. O tom de voz era arrogante e ameaçador. Só transcrevi uma pequeníssima parte. O resto não é nada melhor.

    Coisas deste género conheço muitas.

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