Putins da escola pública

Há um Conselho de Escolas em Portugal. É um órgão consultivo do Ministério da Educação, composto por diretores que dizem aconselhar as políticas “pertinentes” para a Educação nacional. Parece que são eleitos, mas eu nunca soube dessas eleições. Nunca me pediram para votar. Aos meus colegas de escola, também não.

No início deste mês, deram muitos conselhos ao Ministro. Uma verdadeira declaração de guerra aos professores, às escolas e à democracia. Declaração de guerra à escola pública e aos valores morais e éticos que todos os seres humanos têm a obrigação e o dever de respeitar, defender e preservar. Trata-se de uma violenta demonstração de mediocridade e egoísmo, perpetrado por pessoas sem escrúpulos profissionais.

Sou filho do fascismo. Cresci em democracia e nunca aceitarei, de braços cruzados, o regresso à ditadura. Sei que não estou só. O que estes senhores propõem e ambicionam é a ditadura nas escolas. Uma ditadura que privilegia os instintos mais baixos e imbecis do ser humano. Sinto um profundo desprezo por estas pessoas. Querem vencer, à custa do sacrifício e humilhação dos outros. Os conselheiros do 24 de abril. Os saudosos do salazarismo.

Estes senhores, na sua embriaguez deslumbrada de poder, deveriam ler “Antígona” e aprender e assimilar os valores humanos e democráticos. Aprender com Sófocles, que já escreveu há 25 séculos o que talvez nenhum deles tenha lido nem apendido. “Se queres conhecer um Homem, dá-lhe poder”. Os senhores conselheiros fizeram questão de mostrar o que são e mostrar o que valem. Nada. Demonstraram em grandeza a profunda ignorância e desprezo pelos valores ocidentais da democracia. Estes senhores, são gente perigosa para a escola pública.

A “pertinência” das suas ideias iluminadas para a qualidade da escola pública é aconselhar o ministro da educação a não realizar eleições para eleger o diretor. Estes senhores têm medo da democracia e exigem para si o que negam aos outros. Têm tanto medo que desejam perpetuar o seu lugar de diretores e não regressar mais às salas de aula. Pergunto-me se, realmente, alguma vez foram professores.

A sua “pertinência” vai mais longe. Se, até agora, tinham o estorvo de um conselho geral em cada escola, que lhes poderia controlar e travar os seus devaneios e instintos ditatoriais, pedem ao ministro o favor de proceder à sua extinção. E, sem qualquer impedimento moral, ainda pedem ao mesmo ministro que os deixe contratar a seu belo prazer uma razoável percentagem de professores para as suas escolas. As competências que, até agora, eram asseguradas pelas universidades e concretizadas em concursos públicos, pela graduação de cada candidato a professor, passariam a estar concentradas no seu infinito saber arbitrário. Se assim tivesse sido, como agora pretendem que seja, eu tenho dúvidas se alguma vez chegariam onde chegaram. Cospem no prato da democracia que os alimentou.

Todos os ditadores se julgam únicos e sábios. Muitos também se julgam enviados pela providência divina. Já era assim na idade média. Estes “pertinentes” conselheiros, papas das políticas de educação, ainda imploram ao ministro que os deixe avaliar os professores. Eles, e um coordenador de departamento, a ser escolhido por eles. No entanto, honrando a falta de vergonha, pedem para não serem avaliados pelo conselho geral da sua escola. 

Faltam professores em muitas escolas e muitos mais irão faltar. Quando era jovem, havia professores, mas não havia alunos. Tinham de ganhar o pão de cada dia. Agora, temos alunos, mas não temos professores. Em sociedades democráticas, é imprescindível o trabalho de cada um. O dos professores também é. Ainda haverá professores no futuro, conhecendo as ambições e as práticas de muitos diretores do presente?

5 opiniões sobre “Putins da escola pública

  1. Não gostar de Putin, não me obriga a gostar de Zelensky. Não gosto de nenhum deles. E dizes bem, nojenta. Não, Putin tomou o poder e perpetuou-se nele. Um ditador fascista. É só essa a razão. Podia ser outro? Sim, podia, mas não seria tão fácil a analogia.

    Quanto à nato, é melhor nem falar. Abutres.

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  2. Não gostar de Putin, não me obriga a gostar de Zelensky. Não gosto de nenhum deles. E dizes bem, nojenta. Não, Putin tomou o poder e perpetuou-se nele. Um ditador fascista. É só essa a razão. Podia ser outro? Sim, podia, mas não seria tão fácil a analogia.

    Quanto à nato, é melhor nem falar. Abutres.

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