Não quero

(nota: o texto baseia-se na observação de sentimentos comuns na minha classe profissional)

Já não quero ser professor e já não sei porque sou professor. Senhor ministro, senhor presidente, senhor diretor: Já não quero ser professor e já não sei porque sou professor. Não minto. Não quero ser professor. As vossas escolas deixaram de ser escolas para professores.

Senhor ministro, senhor presidente, senhor diretor: Sou filho do tempo e do conhecimento. Vocês negam-me a escola do conhecimento. Uma escola sem conhecimento não me serve de nada. Não serve de nada a ninguém. Não a quero, não a desejo. Nego-a e não quero ser professor. Obrigam-me a tarefas vazias e não sei partilhar o vazio. Nunca aprendi o vazio e ninguém pode ensinar o que não sabe e não aprendeu.

Não quero ser professor. Senhor ministro, senhor presidente, senhor diretor: Foram vocês que usurparam às escolas e aos professores o prazer de aprender e o prazer de ensinar em liberdade. Não sei ensinar sem liberdade. Também aprendi em liberdade e recuso ensinar com cartilhas apertadas e atrofiantes. Cresci em liberdade numa família que respeitava a liberdade. Não quero trabalhar em escolas monárquicas onde a concentração de poder é rei. Não quero trabalhar em escolas onde a democracia é uma sombra e uma miragem. 

Senhor ministro, senhor presidente, senhor diretor: Não quero ser professor nas vossas escolas. São escolas medíocres que avaliam professores de valor. E os senhores não o reconhecem. Atiram-nos às ventas, numa folha timbrada, o retrato da vossa falta de vergonha. Os Homens não se desculpam com cumprimento de ordens. Se assim fosse, como seria hoje a nossa vida? Ladrão não é só aquele que vai à vinha. Os que apoiam, aceitam e empurram para o roubo, também são ladrões. Os senhores são ladrões, porque roubam todos os dias a nossa dignidade com as vossas sujas e porcas avaliações. 

Não. Senhor ministro, senhor presidente, senhor diretor: Não quero ser professor nas vossas escolas mentirosas que avaliam a inclusão e a igualdade com o sucesso oferecido aos alunos no final de cada período e no final de cada ano escolar. Os senhores sabem que estão a mentir e usam de todas as teias, tecidas nos vossos gabinetes, para lançar depois aos professores que ousem fugir e desobedecer às vossas ordens de sucesso. Não podem negar ao professor o direito e o imperativo moral de honestidade com os seus alunos. Não me podem negar o direito moral de não ser cúmplice da verdade.

Não quero. Não quero ser professor nas vossas escolas desorganizadas, irresponsáveis e burocratizadas. Foram os senhores que criaram estas escolas onde o aluno e o encarregado de educação são os legítimos proprietários do saber e da educação. Os professores foram reduzidos a burras de carga ignorantes e a fantoches num teatro sádico de vergonha. Desprezo estas vossas escolas. E desprezo-vos, porque não sabeis defender a razão. Os senhores lavraram e cultivaram uma escola cheia de espinhos por onde todos conseguem escapar, exceto os professores.

Não quero ser professor. Já não sei porque sou professor em escolas onde me obrigam a cumprir ordens e leis escritas por aqueles que menos as sabem e fazem cumprir. Não quero ser professor numa escola, filho de um país com ministros falsos. Prometeram-me uma carreira profissional espartilhada em muitas fatias e forçaram-me a permanecer na mesma durante mais de um terço do meu percurso profissional. 

Senhor ministro, senhor presidente, senhor diretor: Os senhores são os responsáveis pela fuga dos professores das vossas escolas a tempo inteiro e do entretenimento. Os professores não são atores de teatros de revista remetidos a papéis secundários e a vender a preço de saldo o tempo em que os alunos estão nas escolas e deveriam estar, por direito, a partilhar a vida em família. Os alunos merecem mais do que passar sete ou oito horas diárias, sentados em cadeiras, vítimas desta comédia a que chamais escolas. Não quero ser professor em escolas onde os meus alunos se sentem prisioneiros do tempo. Não quero. 

Senhor ministro, senhor presidente, senhor diretor: Desculpem, mas um professor não pode mentir.

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