(este texto foi escrito, inspirado num amigo que acabou de se reformar)
Relaxa, professor, entretém-te. Relaxa.
Olha os alunos, que já vão entrando. Estás cansado? Já abriste a porta? Não abre? Está perra? Força professor, tu és forte, não desanimes, o diretor ajuda-te. Não gostas do diretor? Tu és ingrato. Tu és invejoso. Tu pertences a uma raça de gente pouco recomendável. Tu não vês como gostam de ti? Sim, de ti, por que me viras essa cara? Eles adoram-te. Eles nem dormem a pensar em ti.
Tu és ingrato. Tu não mereces a escola que tens. Tu não mereces nem o ministro, nem a tua vizinha, nem a presidente do conselho geral, nem o Cristo, nem o Costa, nem o Fernandes, nem… nem aquela senhora… qual senhora? Tu não conheces aquela senhora? Aquela senhora é tua amiga. Ela também te adora. Ela pensa em ti. Ela quer tudo para ti. Ela fala com o ministro, o Fernando, o Costa, e todos eles lhe agradecem pelo serviço que te prestam. Não sejas ingrato. Tu pertences a uma espécie de ingratos, ingratos em tudo. Tu não reconheces a gratidão. Não, pois não?
Deram-te um acelerador, deram-te uma plataforma, deram-te um computador… um computador, tu já viste? Deram-te um computador e tu não agradeces. Não funciona? O acelerador não acelera? Hem? Não anda nem para trás nem para a frente? Não anda? É porque tu não sabes acelerar, não aprendeste a acelerar. Acelera, professor, acelera. Descongela, professor, descongela. Progride, professor, progride. Não progrides?
Olha, o Benfica joga mais logo. Não pagaste as propinas do teu filho? Não pagaste a renda da casa? Não descongelas? Tu não descongelas, professor? Tu já descongelaste e nem sabes. Andas muito distraído e entretido com as aulas?
Relaxa, professor, relaxa. Eles não querem que tu te canses. Relaxa. Não penses. Eles não querem que tu penses. Relaxa. Depois deixas tudo em ata. Tudo explicadinho em ata. Ninguém lê? Ninguém lê as atas? Já não cabia? Tinha muitas páginas? E depois o diretor podia ler, não era? Tu tens medo do diretor, não tens? Pois é, professor, é uma chatice. Eles tramam-te, mas tu continuas feliz. Muito feliz. Sempre muito feliz e realizado.
Eles pensam muito em ti, não pensam? Até te oferecem umas formaçõezinhas da felicidade. Tu não vais? Não gostas da felicidadezinha no trabalho? Ai não? Este trabalhinho de professor não te deixa feliz? Relaxa. Relaxa. Não há trabalhinho como o teu. O teu trabalhinho de professor. Pois, o teu trabalhinho. Não sejas ingrato com o teu trabalhinho. Não gostas que te avaliem com essas notas? Não tiveste boas notas? Desceram-te a nota? Como é que te desceram a nota? Tu não reclamaste? Não reclamaste?
Pois, preferes sofrer, não é? Sofrer, preferes sofrer, mas ser feliz. O teu marido zangou-se contigo porque a tua nota não foi a melhor nota dos professores? Tu não és a melhor professora. Tu és professora? Preferes sofrer, porque precisas de paz. A tua paz. A tua pazinha é mais importante, pois é.
Entretém-te. Relaxa. Não deixes que o burnout te agarre. Não deixes. Pois, é o raio da junta médica, não é? Também tens medo da junta médica. Os filhos da mãe da junta médica são desumanos, pois são. Eles não gostam de ti, eles não gostam de ninguém. É da idade. Eles dizem que é da idade.
Tens de te levantar cedo amanhã? Vais para longe, não é? O carro avariou? Está como tu, velhinho. Coitado do carro. Pagaram-te o subsídio de transporte, não pagaram? Não pagaram? Eles não pagaram? Já é tarde, pois é, já é tarde. É sempre tarde. Nunca chegas a tempo, pois não?
Relaxa. Relaxa, professor. Um dia, vais levantar-te cedo e vais a correr. Vais, eu sei que vais. Vais a correr e muito feliz. O último dia? Hoje é o teu último dia? Eles deixaram-te o último dia? Tiveste direito ao último dia?
Eles tratam do teu futuro. Eles nunca se esqueceram do teu futuro. Eles pensaram sempre no teu futuro. O teu futuro, foi sempre a política do futuro. Eles nunca desprezaram o teu futuro. É uma merda? O teu futuro é uma merda? A reforma não chega? Achas pouco? Ingrato. Tu és um ingrato. Querias o quê? Ganhar como os médicos? Os deputados? Querias ganhar como os deputados? Não? Então? Como os diretores? Ah, como os diretores. Mas não podes. Tu não és diretor.
Olha a campainha. Não gostas do toque da campainha? Passaste a vida a toque de campainha… de hora a hora, uma campainha… sempre o raio da campainha. A campainha a comandar a tua vida, o teu tempo, o teu trabalho.
Toca, campainha, toca. Toca, toca com força. Malvada campainha, nunca mais hás de tocar pra mim. Vai-te campainha e vai tocar para outros ouvidos. Para mim não tocas mais.


sobe Luísa, Luísa sobe
sobe a calçada
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