Porque faço greve

Dia 10 de fevereiro começa uma coisa nas escolas chamado de provas-ensaio. Já fui convocado, mas recuso ser cúmplice e estar ao lado dos meus alunos sem saber por que estou ao lado dos meus alunos.

Se eles me perguntarem. “Stor, vamos ter de responder sobre quê?” Que lhes respondo eu? Que não sei? Que ninguém me informou para poder explicar? Vou dizer-lhes “Não se preocupem, isso não conta para avaliação.” E se eles me perguntarem “Stor, se não conta para avaliação, estamos a fazer isto porquê?” Que lhes respondo eu? “Calem-se e façam.”? Mas pode contar para avaliação. Muitas escolas já decidiram que conta para avaliação. 

Não estou habituado a tratar assim os meus alunos. Nenhum professor está. Quando ensino, explico e ouço. Ouço as dúvidas e, se não souber responder, prometo que na aula seguinte terão a resposta. Raramente acontece, porque, regra geral, consigo responder. Agora não. Sobre estas provas só sei que fui convocado para vigiar os alunos. Nada mais.

Chamaram estas provas de ModA. (Monitorização da Aprendizagem). Que aprendizagem? Aprendizagens essenciais do ano anterior? Dos anos todos? Só deste ano, que mal vai a meio? Que digo eu aos meus alunos? “Olhem, são provas-ensaio.” Ensaio de quê? De conhecimentos? Quais conhecimentos? De que ensaio se trata? Para saber o que os alunos sabem ou para saber o que todos sabemos, que as escolas estão mal equipadas com meios técnicos para realizar provas digitais?

Preparar os alunos para futuras provas digitais? E precisamos de fazer tanto barulho com isto, em todo o país? Os alunos não se poderiam preparar na escola sem necessidade de provas nacionais?  E para quê corretores? Corretores, para corrigir e avaliar o quê?

Volto ao início. Provas-ensaio de quê? Sim, eu sei que são só algumas disciplinas. Mas irão os alunos responder sobre quê, na disciplina que me convocaram para que estivesse com eles e da qual sou professor? Se o professor não sabe, como poderão saber os alunos? 

Eu queria distanciar-me disto. Mas eu respeito os meus alunos. Também sempre me respeitaram. Os meus alunos não merecem ter uma espécie de professor traidor. Não os submeto ao cumprimento daquilo que eu desconheço. 

Não levanto a questão dos professores solidários, na versão do governo, embora nomeados pelo diretor. Estranha forma de solidariedade. Ainda esperei que pedissem desculpa quando me nomearam para vigiar as provas. Penso que os professores mereciam isso. Afinal, os diretores também cumprem ordens. Não. A convocatória não vinha acompanhada de qualquer pedido de desculpas. São os novos tempos. Ouve, cumpre e cala.

Gostaria muito de estar ao lado dos meus alunos nessa prova de ensaios. Tenciono explicar-lhes porque não estive. Se não entenderem, tenho a certeza de que não se irão esquecer e irão compreender que há momentos na vida em que é preciso saber dizer NÃO.

2 opiniões sobre “Porque faço greve

  1. Mas há alguma greve que não tenhas feito? Qual é a novidade? Era trabalhares no privado que logo vias como dói. Atrasados mentais que nunca pensam nos alunos. E é muito bom que haja provas que vão mostrando que os alunos não estão a aprender nada com os coitadinhos que só pensam em si próprios e nas suas greves. Ganha vergonha, pá!

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