Os cravos e a escola

Tenho orgulho num país que numa madrugada mostrou ao mundo a força da liberdade estampada num cravo vermelho no cano de uma espingarda. 

Tenho orgulho num país que me deixou ir à escola depois do cativeiro de uma longa noite de 50 anos mergulhados na ignorância, no obscurantismo e no analfabetismo. 

Tenho orgulho num país que me ofereceu a liberdade, sem eu ter lutado por ela, e me deixou aprender em democracia. Obrigado Portugal. Obrigado por me teres deixado ser professor e poder ensinar em liberdade. Obrigado por todas as crianças e jovens que conheci nas escolas e que nunca teria conhecido sem a revolução dos cravos.

50 anos depois da madrugada dos cravos no cano de uma espingarda, conheço outro Portugal. Um Portugal florido para alguns, mas negro para muitos. Foram 50 anos duma vida intensa nas escolas. Muito tempo. Tempo suficiente para perder o orgulho no mesmo país que me ensinou a democracia, a generosidade, a equidade e a liberdade de pensar e ensinar.

O mesmo país que perdeu o Norte da educação e há duas décadas navega à deriva num mar de ilusão e mentira. Um país que dificilmente se reconhece para aqueles que puderam saborear durante três décadas o gosto da democracia. Um país irreconhecível para quem ama a liberdade, o livre pensamento, o conhecimento, a criatividade e a felicidade no trabalho. Perdemo-nos nas políticas de educação. 

Comungo com Francisco Bergoglio o sonho de uma escola verdadeiramente inclusiva e assente em valores democráticos. O papa que soube destacar “que os professores não são apenas transmissores de conhecimento, mas também testemunhas de suas próprias convicções e compromissos com a vida.” E o meu compromisso é ser testemunho da verdade e garantir aos alunos que não há nem pode haver educação sem democracia e sem liberdade. 

Comemoramos nas escolas o 25 de abril com a chama da democracia apagada dentro da própria escola e com professores revoltados e desmotivados porque lhes é vedado o direito de opinião, o direito de discordar, o direito do pensamento crítico, o direito ao respeito e o direito de exercerem a sua profissão como professores livres, sérios e responsáveis. 

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