A esperança

Hoje, tive alunos que, na despedida da última aula, não falavam e olhavam, de olhos vidrados, os olhos do professor. Confesso que tive pena de alguns. Lembrei-me do meu pai, quando partiu para França em 1961, o ano em que eu nasci. Contava ele muitas vezes, que partia com os mesmos olhos vidrados e o coração partido. Hoje, alguns alunos, também me partiram o coração.

Não vejo os alunos como filhos. Vejo-os como alunos. Mas trato-os, talvez com amor semelhante ao que senti do meu pai nas muitas vezes em que partiu para França, quando eu era criança e, mais tarde, adolescente. Muitos queriam abraçar, mas eu evito abraços. Por mais que me doa, sou adulto e tenho a sensação de que um professor não deve andar aos abraços ou aos beijinhos aos alunos. Acreditem que é preciso muita coragem para resistir.

Também me fizeram lembrar, talvez um dos nossos maiores poetas e médico, Miguel Torga. Dizia ele que recebia muitos doentes, oriundos de aldeias distantes, alguns bastantes pobres e que procuravam o médico já em situações desesperantes, porque o dinheiro não chegava, muitas vezes, nem para pôr o pão na mesa. Ele travava-os, com o amor e sabedoria que podia e, quando os via felizes, apetecia-lhe dar-lhes um abraço. Mas não podia. Tinha a bata e a responsabilidade de médico, que não se pode deixar vencer por emoções. A sua missão era curar doentes.

Já não sei muito bem, nestes tempos conturbados, em que a escola já não é o que era, e ninguém sabe muito bem o que é ou o que será. Não sei muito bem onde termina ou começa a fronteira do profissional de educação e a fronteira do professor que também é Homem. A escola, onde todos desconfiam de todos. A escola onde um inimigo invisível paira no ar e nunca sabemos bem quem é e muito menos porque é nosso inimigo.

São tempos difíceis em que os pais depositam os seus filhos do lado de dentro dos portões da escola e não pensam mais que, durante longas horas, o dia inteiro em que se ausentam dos seus filhos, há alguém que os substitui e com a responsabilidade de nunca os entregar exatamente como os recebeu. Alguém que, dentro de uma sala de aula, dá o seu melhor na esperança de poder proporcionar um futuro em que as aprendizagens e o saber poderão ser determinantes nas vidas dos seus filhos.

Raramente, nestes tempos muito modernos, os professores poderão sentir alguma gratificação na alma por algum encarregado de educação ter reconhecido o esforço, o trabalho e a entrega que todos os dias os professores oferecem gratuitamente aos seus filhos. Digo pais, e poderia também incluir, diretores de agrupamentos. Não são poucas as vezes em que tudo acontece ao contrário. É a desconfiança. É ver no outro, no professor, o potencial inimigo, sem saber porquê, mas é a perceção generalizada e a ignorância de valores, que se vão esvaziando nos discursos das redes sociais e das televisões.

São tempos para levar a sério e tempos para esquecer. Hoje, alguns alunos, conseguiram dar um exemplo de empatia de meter inveja a muitos ministros, a muitos diretores e a muitos adultos, pais e encarregados de educação.

9 opiniões sobre “A esperança

  1. Mais um excelente texto do Agostinho perpassado de sinceridade, consciência das situações, sensibilidade, bem contextualizado e indo à essência da situação. Os meus parabéns. Se houvesse mais pessoas assim, o mundo seria um local melhor para se viver.

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  2. Este ano, não passei por este momento. O da despedida! Não escondo que, mais do que nunca, precisava desses olhares, que no fundo reconhecem o que é ser PROFESSOR. Não tenho dúvidas que, na minha centena de alunos, sentiria a gratidão (algo tão desaparecido, infelizmente, nos nossos tempos) de alguns. Estou de atestado. No 3.º Período, pela 1.ª vez, em 25 anos de serviço. Quem me conhece, diz que sou uma lutadora, que nunca deixo de dizer o que penso, nos sítios certos, com educação e muitas vezes com emoção. Mas… mas este ano, foram longe demais! Cheguei a uma Escola que tem tudo para dar certo. Tudo! Mas, ao “escancarar” a porta aos pais, permitiram que, numa freguesia pequena, que eu me tornasse um bode expiatório. Bastaram 3 EE para me ferirem a “alma”. Tudo baseado em mentiras, facilmente, refutadas por mim. Mas a agressividade foi tal que até a polícia tiveram que chamar para um deles sair. E se soubesses os motivos! Vergonhosos. Fáceis de rebater, mas que estes EE que não querem ver o que têm em casa, levam longe demais. Perante eles/elas fui forte e mantive a minha dignidade. Mas a alma ficou ferida! Os colegas impecáveis (tirando uns poucos que acham que o meu problema é não me calar!). A Direção, está ao meu lado (embora afastada😉), mas permitem que os pais ataquem e não os obrigam a retratarem-se quando se prova que tudo o que fizeram foi longe demais e é baseado em mentiras infundadas, criadas por alunos que não têm educação. Muitos colegas disseram-me para esquecer. Como posso, depois de tudo o que passei (não fazeis ideia!)? Como podemos permitir que nos ofendam assim? E não adianta dizer que temos que os processar. Já o fiz, numa outra circunstância, e o tribunal arquivou. Porque a mãe não me bateu😉 . Devem estar a pensar, que procuro estas situações. Não as procuro. O meu problema é não me conseguir calar perante tamanha falta de respeito e não fugir aos ataques injuriosos, aos quais estamos muitas vezes sujeitos. Mas, desta vez, fui ao fundo do poço. Pois há alturas em que, o ciclo da vida, nos leva alguém de quem gostamos muito (os PROFESSORES são humanos) e as forças não chegaram para tudo!

    Desculpa este desabafo e texto tão longo, mas sabes que não nos precisamos de conhecer, pessoalmente, para nos identificarmos com pessoas que convivemos regularmente, mesmo que seja, no digital (Mais no Quintal e agora aqui). O teu texto tocou-me de tal forma que precisei de partilhar!

    Não me admira que os alunos gostem de ti.

    Abraço e obrigada por este espaço.

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  3. Este ano, não passei por este momento. O da despedida! Não escondo que, mais do que nunca, precisava desses olhares, que no fundo reconhecem o que é ser PROFESSOR. Não tenho dúvidas que, na minha centena de alunos, sentiria a gratidão (algo tão desaparecido, infelizmente, nos nossos tempos) de alguns. Estou de atestado. No 3.º Período, pela 1.ª vez, em 25 anos de serviço. Quem me conhece, diz que sou uma lutadora, que nunca deixo de dizer o que penso, nos sítios certos, com educação e muitas vezes com emoção. Mas… mas este ano, foram longe demais! Cheguei a uma Escola que tem tudo para dar certo. Tudo! Mas, ao “escancarar” a porta aos pais, permitiram que, numa freguesia pequena, que eu me tornasse um bode expiatório. Bastaram 3 EE para me ferirem a “alma”. Tudo baseado em mentiras, facilmente, refutadas por mim. Mas a agressividade foi tal que até a polícia tiveram que chamar para um deles sair. E se soubesses os motivos! Vergonhosos. Fáceis de rebater, mas que estes EE que não querem ver o que têm em casa, levam longe demais. Perante eles/elas fui forte e mantive a minha dignidade. Mas a alma ficou ferida! Os colegas impecáveis (tirando uns poucos que acham que o meu problema é não me calar!). A Direção, está ao meu lado (embora afastada😉), mas permitem que os pais ataquem e não os obrigam a retratarem-se quando se prova que tudo o que fizeram foi longe demais e é baseado em mentiras infundadas, criadas por alunos que não têm educação. Muitos colegas disseram-me para esquecer. Como posso, depois de tudo o que passei (não fazeis ideia!)? Como podemos permitir que nos ofendam assim? E não adianta dizer que temos que os processar. Já o fiz, numa outra circunstância, e o tribunal arquivou. Porque a mãe não me bateu😉 . Devem estar a pensar, que procuro estas situações. Não as procuro. O meu problema é não me conseguir calar perante tamanha falta de respeito e não fugir aos ataques injuriosos, aos quais estamos muitas vezes sujeitos. Mas, desta vez, fui ao fundo do poço. Pois há alturas em que, o ciclo da vida, nos leva alguém de quem gostamos muito (os PROFESSORES são humanos) e as forças não chegaram para tudo!

    Desculpa este desabafo e texto tão longo, mas sabes que não nos precisamos de conhecer, pessoalmente, para nos identificarmos com pessoas que convivemos regularmente, mesmo que seja, no digital (Mais no Quintal e agora aqui). O teu texto tocou-me de tal forma que precisei de partilhar!

    Não me admira que os alunos gostem de ti.

    Abraço e obrigada por este espaço.

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  4. Pelo menos, podes sentir a solidariedade sincera de um colega que não conheces mas que é professor como tu e sujeito às mesmas arbitrariedades e ao estado lastimoso e vergonhoso a que chegou a nossa escola.

    Nunca esqueças que terceiras pessoas nunca poderão ter o direito de interferir no nosso bem estar. Pelo que vou conhecendo do que se passa no país, as direções das escolas são as grandes responsáveis pela cumplicidade evidente com os encarregados de educação. E mais, até dos alunos. Uma vergonha.

    Temos de ser fortes. Ninguém nos pode vencer.
    Desejo que recuperes o mais rápido possível.

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