A escola ou a poupança

É uma afronta. Uma provocação. 

Isto não se faz. Não se brinca com a pobreza. Os pobres merecem respeito. Os pobres são pessoas dignas como qualquer outra pessoa. Não é a riqueza que produz a dignidade. Não se pode dizer aos pobres que são pobres porque não sabem poupar.

A pobreza reina nas escolas. Há muitos alunos pobres. E, a maior parte deles, pobres ou remediados. É uma afronta. E devia ser crime. Respeitem os pobres, porra! Eu estou na escola e vejo. Ainda tenho olhos. Não me queiram enfiar a burca.

O Ministro da educação pede para se comemorar o Dia Mundial da Poupança nas escolas. Dia 31 de outubro. E o que pede o cretino, o cretino do ministro? Que se assinale a relevância da literacia financeira e o empreendedorismo. E que mais quer o cretino do ministro da educação? Quer a participação da CMVM ( Comissão de Mercados de Valores Mobiliários) a Bolsa de Valores, para sermos mais claros. E o Banco de Portugal. E as Autoridades de Supervisão Financeira. Que mais quer o ministro? Quere que os alunos pobres e remediados lhe ofereçam o Banco do Vaticano e a Caixa de esmolas da Cova da Iria?

Podia encher este texto com números oficiais da pobreza que reina nos jovens que frequentam as nossas escolas públicas. Podia lançar dados que comprovam a pobreza de milhões de famílias portuguesas que despejam os seus filhos na escola. E dados que revelam as centenas de milhar de famílias trabalhadoras pobres com o salário mínimo. Eram só números. Reais, mas números que nunca passariam de números na nossa imaginação. A pobreza não é um número. A pobreza são pessoas. Pessoas jovens que enchem as nossas escolas. 

Literacia financeira. Duas lindas palavras. Com empreendedorismo. Todas lindas. Todas vazias. Completamente vazias. Enchem-nos o imaginário, mas mantêm-nos os bolsos vazios. Enchem-nos de sonhos, mas são o nosso pesadelo. Alimentam-nos a esperança, mas deixa-nos a barriga vazia. Enchem as salas de aula com alunos de olhos brilhantes no presente e com o futuro baço, cinzento e negro. Um futuro de pobreza ou de emigração. 

É sempre possível poupar e ser rico. É sempre possível cada aluno ter uma ideia brilhante e construir uma grande empresa. É sempre possível ter muito dinheiro e investir na bolsa e ganhar na especulação financeira e viver sem trabalhar. É sempre possível ser banqueiro. Ou ser Papa. Ou Cardeal. É sempre possível poupar.

Senhor ministro da educação, comemore o Dia Mundial da Poupança abrindo em cada escola uma agência bancária e em cada Concelho uma Bolsa de Valores. Encha as escolas de alunos empreendedores e ofereça a cada um parte da sua carteira de ações. Em vez de aprenderem matemática, ou ciências, ou biologia, ou inglês, que diabo, vamos todos construir o nosso Nasdaquezinho ou o nosso Dow Jones de tamanho familiar. Obrigado, senhor ministro. 

5 opiniões sobre “A escola ou a poupança

  1. Muito bem Agostinho.👏👏👏

    A tua revolta vem da sensibilidade que tens para os problemas sociais e políticos do país. Dos países.

    Todos vemos e lemos o mesmo que tu, mas tu indignas te. Revoltas te. Escreves. Manifestas te.

    Como diz a Sophia de Mello Breyner: vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar!

    É pena que mais gente não se indigne nas escolas. A começar pelas pessoas que as governam e nos mandam comemorar essa afrontas da Poupança e do Empreendedorismo em escolas pobres. Como dizes, devem estar a gozar com a cara dos alunos e das suas famílias.

    Como se pode poupar num país que tem ordenados miseráveis com um alto custo de vida???

    Só ideias peregrinas de tontos como o Ministro da educação. Ideias de neo liberalismo académico.

    Liked by 1 person

    1. Eu não tenho nada contra o empreendedorismo, e literacia financeira… enfim, tolero. Mas não da propaganda e do aproveitamento político que se cria à volta. Se proporcionassem condições de trabalho dignas para professores e alunos seria a melhor forma de lutar por um futuro melhor dos nossos alunos. Salas de ciências bem equipadas, de matemática, inglês, física, química…e das restantes disciplinas, isso sim, era trabalho. E uma educação de qualidade e não do facilitismo e da impunidade. Onde alunos e professores fossem avaliados com respeito, justiça e lealdade. Mas não é o que temos.

      As oportunidades dadas aos nossos alunos para garantir um futuro com alguma qualidade, não existem. As escolas públicas já pouco ou nada contribuem para o mobilidade social. O Estado também não. E aparece um ministro muito delicodoce a manipular a esperança de quem não nasce na vida com padrinhos ou em berços de ouro.

      Gostar

  2. Nem o fernandinho vai ó vinho nem os outros gurus do economês e das respectivas academias tão amantes do dito empreendorismo alguma vez se deram ao trabalho de explicar às novas gerações que adoram arregimentar que o nº de start ups, unicórnios e quejandos que sobrevive ao primeiro ano existência é abaixo de insignificante. E as que sobrevivem ao segundo ano ainda são bem mais insignificantes. Assim sendo, como justificar tanta insistência num via sem saída, tirando alguns ínfimos exemplos???

    Para quê dedicar tanto afã a querer que cada jovem tuga se transforme por artes do diabo num minicapitalista de trazer por casa? Está tudo doido ou sou eu estou a ficar apanhado do clima? Cada vez há menos paciência para aturar estas pseudo-elites manhosas, ignorantes e mentirosas. Chiça!!!!!!!

    Liked by 1 person

    1. Só te posso garantir que se alguém está a ficar apanhado do clima, não és tu.

      “Deem-me um ponto de apoio e eu levantarei o mundo “. Assim falava Galileu, se não estou em erro. Onde é que está o ponto de apoio para os nossos alunos do empreendedorismo e da literacia financeira?

      O ministro que vá gozar com o raio que o parta. Cretino sem vergonha.

      Gostar

Deixe uma resposta para António Duarte Cancelar resposta