São os tempos

Mais uma razão. Os tempos são o que são e talvez seja o tempo dos filhos educarem os pais.

– Stor, há mais indianos na Marinha Grande do que nós. Muito mais.

– É verdade, é verdade, parece que há muito mais.

– Stor, se o stor reparar, quando alguém atravessa a rua é sempre um indiano.

– E, stor, eles não trabalham. Eles vêm para cá para viver dos nossos impostos.

– Não é só os impostos. As mulheres vêm grávidas para terem filhos em Portugal e a gente é que paga.

Isto, e muito mais, ouvi hoje numa aula de História. Deixei-os falar. Se eles não falarem, como poderemos conhecê-los? Como poderemos ajudá-los? Há quem não concorde. São miúdos e não sabem o que dizem. Só dizem o que ouvem. Eu não concordo muito com esta opinião. E, se só dizem o que ouvem, mais uma razão para ouvirem o que não costumam ouvir.

– Então, pergunto eu à turma, e como é que vocês têm tanta tanta certeza com as afirmações que fazem? Parece que até estão muitos zangados…

Uma aluna põe o dedo no ar e atira ao professor:

– Stor, tenho a certeza, porque eu vi na televisão. 

– Mas, nem tudo o que vês na televisão é verdade, ou pode não ser verdade. Respondi-lhe. Sem hesitações, voltou a atirar-me com outra questão. 

– Stor, se não é verdade, porque é que a televisão diz?

O programa da disciplina contempla alguns temas que se prestam a estes comentários. Migrações, emigração, imigração, tráfico de seres humanos, escravatura. Apesar de se estudar tudo isto no âmbito das consequências da expansão marítima portuguesa nos séculos XV e XVI, são assuntos da actualidade, ou que alguém quis que fossem da actualidade. Antes não fossem.

A turma, já em profundo silêncio, perguntei:

– Quantos habitantes tem a Marinha Grande? O que é que vocês acham? Só pode responder quem mantiver o dedo no ar. É a regra.

Dei a palavra e um deles respondeu. Os outros concordaram.

– 150 mil, ou mais, stor.

– Muito bem. E quantos indianos vivem na Marinha Grande? perguntei eu. Outro aluno respondeu:

– Mais de 60 mil. Muito mais.

No quadro escrevi, por baixo de 150 mil, 40 mil. E por baixo de 60 mil, o número 940.

Certo, são crianças, pensarão. E eu respondi e expliquei a crianças. Comuniquei com linguagem para crianças entenderem. Muitos não quiseram entender e questionaram. Puseram em causa o conhecimento do professor. Passam os limites sem saberem que passam os limites. É a ignorância arrogante que ouvem… não sei onde…

– Não pode ser, stor, isso é impossível. 

Não ia preparado para nada disto na aula. O plano de trabalho era outro e o professor sabe planificar previamente o trabalho com os seus alunos. O professor estava à altura. O professor tem de estar sempre à altura e preparado para todo o tipo de planos e imprevistos. Levaram um trabalho de casa, mais conhecido por TPC. 

– Se a Marinha Grande tem 40 mil habitantes e, se 940 desses habitantes são indianos, qual é a percentagem de indianos a viver na Marinha Grande?

Já sei que irão aparecer muitas respostas diferentes desta: 2.35%.

3 opiniões sobre “São os tempos

  1. Por isso é que é imprescindível o papel da escola e dos professores com perfil para abordar estes temas!.

    É preciso desmascarar estas ideias feitas e os preconceitos que as crianças transportam de casa e das comunidades.

    Mas a própria Tutela anda a desconfiar das escolas e dos professores que lecionam cidadania. Agora teve a ideia peregrina de submeter o plano curricular de cidadania à apreciação de EEs e alunos representantes da turma, como se os professores e a escola não soubessem o que ensinam!!!

    Isto é um insulto um achincalhamento aos professores . Os sindicatos não dizem nada? As associações de professores?

    A voz do povo nem sempre tem razão. Muitos núcleos populacionais estão assustados mas é preciso dizer lhes que as pessoas vieram para trabalhar e alguns para sobreviver fugidos a guerras internas, catástrofes ambientais.

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  2. Sim, eu também acho que os professores não se podem demitir desse papel de desmascarar as mentiras e manipulações. E, já vetifiquei, se explicarmos com calma e paciência, os alunos entendem. Tenho dúvidas é se estaremos todos realmente interessados em desmascarar e com capacidades suficientes para o conseguir fazer. Dá trabalho. Cansa. Mas é uma luta em que todos nos deveríamos empenhar.

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    1. É por nos demitirmos desse papel que os partidos de ultra direita, racistas e xenófobos têm cada vez mais votos e protagonismo.

      Depois choramos todos quando nos obrigarem novamente a fazer a saudação nazi e a envergar a farda da mocidade portuguesa.

      Depois será chorar sobre o leite derramado.

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