Reconhecimento

A escola que fez de mim professor não era a escola ideal, mas só lhe retirava o sistema de retenção e pouco mais. Acrescentava alguns detalhes, porque os tempos também são outros. Era uma escola onde se trabalhava e se aprendia. As competências adquiriam-se em casa e com a experiência da vida.

Enquanto aluno, a escola ofereceu-me as bases de conhecimento que me permitiram abrir horizontes e sonhar mais alto na universidade.

Há mundos por conhecer que só quem viaja e estuda pode imaginar e vislumbrar. Há outros mundos mais curtos e próximos de quem não estuda. O que não significa que não sejam mundos de valor onde cada um se realize como Homem. A escola não é nenhum tribunal, nem os professores são juízes. A escola não decreta veredictos de vida ou de morte. Não absolve nem condena. Essa não é a missão da escola.

A retenção condena. O sucesso administrativo também. Condenar porque não se adquirem conhecimentos, não é diferente de absolver por ignorância. Ambas são condenações e ambas estão erradas. Uns porque não conseguem, outros porque são enganados.

Escola é conhecimento, ou será outra coisa qualquer. O conhecimento adquire-se com trabalho e com responsabilidade. A mensagem das nossas escolas é outra. Promete e certifica sucesso sem conhecimento. E justifica a ignorância com facilitismo, igualdade de oportunidades e inclusão.

As famílias e os alunos só reconhecerão uma escola como verdadeiro elevador social quando forem dadas as mesmas reais oportunidades aos mais desprotegidos e desafortunados e aos outros. Só o conseguiremos com uma escola exigente, sem facilitismos e sem retenções.

O facilitismo é manipulação do conhecimento e do futuro de uma criança. O facilitismo é hipotecar o futuro de uma criança com carência de recursos. O facilitismo não ensina, mas finge que sim, que ensina. Facilitismo é deseducação. Facilitismo é o recurso mais barato e mais cretino para simular sucesso. O facilitismo é o recurso mais económico dos neoliberais para enganar os pobres.

Ensino do conhecimento e do futuro não pode admitir nem retenção, nem facilitismo. Em nome dos alunos que não nasceram em berços de ouro.

10 opiniões sobre “Reconhecimento

  1. Os que não querem conseguir o quê?

    Os que optam por não querer estudar? Não sei exatamente ao que te feferes, mas não é obrigatório ter sucesso na escola para poder ter sucesso na vida. Ou seja, não é à retenção que vai salvar a vida de uma criança que não quer ou não consegue. Estudar, sim. Trabalho, esforço e responsabilidade na escola, sim. Mas não podemos condenar os outros. Os outros também têm direito a ser felizes.

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  2. Peço desculpa por não ter sido completamente explícito. O meu comentário remetia directamente para o seu texto e, por isso, pareceu-me que não existiriam “problemas de referência”. De qualquer modo a sua interrogação (os que optam por não querer estudar?) capta o que eu referia. A sua resposta deixa-me ainda mais perplexo. Como é que estudar salvará alguém que não quer estudar?

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    1. Não sei se vou conseguir responder à tua questão. Vou tentar sem maçar muito.

      Vamos partir de dois princípios para evitar equívocos. 

      1. Estudar é um direito. Não estudar, fora da escolaridade obrigatória, também é um dreito.

      2. Um dos grandes desastres da nossa educação, na atualidade, é confundirmos estudar com sucesso. Porque agora todos têm sucesso mesmo sem estudar. (É só olhar para as taxas de retenções.)

      Temos de organizar o nosso sistema de educação sem recurso a retenções. Parece contraditório, mas não é: Porque o sistema de retenções obriga ao sucesso coarcivo e administrativo desvalorizando o papel do professor e da avaliação de alunos. Por outro lado, há alunos que não querem estudar, mesmo dentro da escolaridade obrigatória. Esses alunos, não podem ser excluidos por nenhuma razão e é também por isso que temos de excluir as retenções. 

      Os alunos que não querem ou não gostam de estudar ou não conseguem aprender de acordo com os currículos que a escola oferece, de modo nenhum podem ser excluidos por retenção. Esses alunos têm de ser orientados para um ensino profissional sério e responsável. Que é coisa que não temos. (Quer dizer, temos uma espécie de imitação de ensino profissional.) E é neste encaminhamento que os professores têm de saber avaliar para poder enviar para o ensino profisdional os alunos que preferem esse percurso e não aqueles que só entram no ensino profissional, não por opção, mas porque reprovaram.

      Nós reprovamos alunos e afastamo-,los das escolas como se fossem pessoas sem qualquer valor e sem grande importância para a sociedade. Passamos a mensagem de que são pessoas que não prestam. E isso é falso. Eu até diria, criminoso. Há muitos alunos que não gostam, não querem ou não conseguem ter sucesso nos currículos das escolas, mas não quer isso dizer que não possam ser pessoas úteis e com sucesso na vida. 

      A escola tem de incluir todos na escolaridade obrigatória e tem a obrigação de saber educar e formar para a vida. Não é por reprovar na escola que tenha de reprovar também na vida. E com as retenções nós estamos a condenar alunos a reprovar também na vida.

      Devemos avaliar  seriamente e rigorosamente, não para reprovar, mas para orientar para o futuro percurso escolar do aluno: Ou ensino profissional, ou ensino superior. E esta responsabilidade tem de ser dada aos professores e às escolas. E, sim, um aluno que não queira ou goste de estudar pode ter o mesmo ou mais sucesso na vida do que os outros. 

      Obviamente, a escola também tem a obrigação de saber motivar esses alunos e proporcionar-lhes condições de trabalho e aprendizagem que os ajude no futuro. Não foi com o 3/2008 nem é com o desgraçado e hipócrita 54. Nem com o sucesso coarcivo. A consequência, já a vivemos e é escandalosa: o aluno não aprende, a culpa é do professor. Ou, o aluno tem negativa, a culpa é do professor. Isto é trágico. 

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      1. Vou apresentar de modo claro o argumento subjacente ao princípio 2 que enuncia atrás:

        Todos têm sucesso mesmo sem estudar (como o evidencia a evolução das taxas de retenção).

        Logo, estudar confunde-se com ter sucesso.

        Assim apresentado parece-me evidente que o seu princípio 2 não tem qualquer sentido. Dá origem a equívocos ou parte de um equívoco. Dois significados distintos de estudar (frequentar aulas e trabalhar com a finalidade de aprender).

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  3. Uma achega. Prefiro questionar e, analisadas as respostas, voltar às questões se me parecer que isso é justificável (por exemplo , se me parecer que há inconsistências). Para mim as respostas devem, idealmente, fundamentar afirmações anteriormente feitas e que não surgiam, no meu entender, devidamente justificadas. Por exemplo, a sua afirmação ” a retenção condena” soa-me a “mantra”. Não vislumbro no seu texto qualquer justificação para essa sua crença.

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  4. Concordo com o que disse.

    É muito difícil explicar com rigor aqui num blogue como funciona e como é mais rigoroso e justo um sistema escolar sem retenções. Requer muitos pormenores, muitos detalhes. Mas tenho a certeza naquilo que defendo e afirmo. Até porque também ja defendi o contrário há muitos anos.

    Acontece que pude aprender com outros povos e escolas e sociedades bem mais evoluídas que nós. E também não é por acaso que esses mesmos povos já tenham banido há muito as retenções nas escolas.

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  5. Os alunos não podem ser excluídos porque estão na escolaridade obrigatória. E retê-los é excluí-los. A primeira afirmação decorre da lei. Podemos eventualmente questionar a escolaridade obrigatória mas não me parece que este seja o ensejo para isso. A segunda afirmação volta a soar-me a mantra. Porquê? Uma coisa não implica a outra.

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    1. Sem retenção não existe qualquer razão para o abandono escolar. Ou, se existir, é por incúria, desleixo ou irresponsabilidade das nossas autoridades. A retenção é a maior causa para o abandono escolar. Isso não merece discussão porque é um assunto estudado e sabido e já resolvido em paises mais civilizados que o nosso.

      Repara nas taxas de abandono escolar desde 2005. E só começaram a diminuir, não porque ficámos mais ricos ou os alunos a aprender mais, mas, simplesmente, porque os governos sabiam disso e obrigaram coarcivamente através de uma avaliação fingida dos alunos a não os reter.

      Agora, diz-me se não achas escandaloso e ao nível de terceiro mundo. Em 2023 andará pelos 8%.

      • 2005 — 38,3% (valor histórico elevado — citado em relatórios da OCDE/Eurostat para o início da década). OECD
      • 2013 — 18,9% (situação ainda elevada, antes da queda acentuada que se seguiu). CEDEFOP
      • 2019 — 10,6% (continua a diminuir ao longo da década). OECD
      • 2020 — 8,9% (dados Eurostat / bases que reportam 2020 perto deste valor). Trading Economics+1
      • 2021 — 5,9% (mínimo histórico reportado) — vários relatórios e notícias indicam que em 2021 se registou um mínimo histórico perto de 5,9%. European Commission+1
      • 2022 — 6,0% (relatórios e plataformas como Pordata/EPALE/Eurostat referem cerca de 6% em 2022). PORDATA+1

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  6. Acresce a isso o facto de que na escola de antanho, a minha e a sua, a retenção existia, inclusive no “ensino profissional”, e isso não impedia o “sucesso” ou condenava alguém. Servia muitas vezes para “abrir a pestana”.

    O direito a não estudar existe como o afirma fora da escolaridade obrigatória. Dentro desta esse direito, e isto decorre da sua afirmação, é inexistente.

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