Lavrar o chão da vida.

Enquanto criança, lavrei muita terra com o meu avô. O meu pai nunca foi dado à terra e preferia outros trabalhos que complementava com o gosto e a necessidade de leitura. Penso que sou o resultado da aliança entre a terra e os livros. Devoro páginas e puxo as folhas com o dedo como o meu avô virava a terra com o arado e cada novo rego era uma nova página que prometia a semeadura dos frutos do futuro. Aprendi a vida. Aprendi a escola. Aprendi a escola da vida e era a minha irmã que fazia muitos dos meus trabalhos de casa.

Não consigo pensar nisto sem relacionar com o desprezo que votamos hoje ao trabalho. Falo do mundo de quem nos governa e nos tem governado nos últimos anos e de quem nos quer governar no futuro. Um desprezo completo e feroz pelo trabalho e pelo trabalhador. É um terreno político que nos deveria envergonhar. Todos o sentimos e só por preconceito ou medo o ocultamos e não manifestamos.

Esse desprezo e ataque constante ao trabalho e ao trabalhador também já o vivemos na escola. Os professores sentem-se ameaçados e perderam a confiança naqueles que deveriam ser os primeiros a defendê-los. Desprezo que também já chegou aos alunos e às salas de aula. Os alunos já compreenderam a desnecessidade do trabalho, porque deixou de ser valorizado. Pouco importa se trabalha ou não. O resultado é o mesmo e até corre o risco de subir ao palco e receber uma medalha de mérito.

Não faço demagogia do trabalho e da vida e não finjo o trabalho nem a vida. É por isso que sinto alguma angústia quando convivo e me confronto com homens e mulheres trabalhadores que manifestam muitas dificuldades na distinção entre aqueles que defendem e valorizam o seu trabalho e aqueles que o repudiam e desprezam. O declínio da literacia política e do trabalho tem-se acentuado à mesma velocidade a que crescem as falsas verdades e as falsas promessas nas redes sociais e nas televisões. 

Temos uma greve geral a bater-nos à porta e todos os trabalhadores têm a obrigação moral e ética de abrir essa porta. Fechá-la é trair o trabalho e o trabalhador. É trair o presente e trair o futuro. É trair-se a si próprio e a todos aqueles que têm consciência que é o trabalho e o trabalhador que criam a riqueza que nos põe o pão na mesa. 

Se não fizeres greve por ti, faz pelos teus filhos e se não tiveres filhos, faz pelos filhos dos outros. Não ofereças gratuitamente a liberdade que ainda tens e recebeste daqueles que lutaram e morreram para que hoje a pudesses usar. Se não encontras outras razões, honra e respeita os teus antepassados trabalhadores. 

7 opiniões sobre “Lavrar o chão da vida.

  1. Obrigada pelo teu texto, Agostinho.

    É muito bonito e verdadeiro. Lindo!

    De grande sensibilidade e reflexão sobre o valor do trabalho. E de incentivo à greve do PX dia 12.

    Há passagens de ternura,de verdadeira poesia: o lavrar a terra com o avô, os trabalhos de casa feitos pela irmã, o gosto do pai pela leitura,o folhear dos livros como quem lavra a terra, etc etc.

    E as passagens sobre a atual desvalorização do trabalho nas sociedades ocidentais.

    (Os orientais não pensam da mesma maneira, digo eu, pela minha própria experiência laboral).

    No caso das escolas portuguesas : desvalorização do nosso trabalho por direções, alunos e encarregados de educação. Concordo inteiramente. Habituaram se a desvalorizar nos. O trabalho do professor não vale nada.

    A História do trabalho é longa nas sociedades ocidentais. Há muitos livros sobre isso e muito interessantes.

    Neste momento uma nova revolução no trabalho está a aparecer: a introdução da IA em todos sectores.

    E ninguém sabe bem como vão reagir os trabalhadores. Ninguém os preparou para isso.

    Irão partir novamente as máquinas?

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    1. Eu sei que compreendes e sabes dar o valor a quem trabalha. És dotada de um grande sentido de respeito pelos trabalhadores e por todos os desprotegidos que a sociedade tenta esconder e fingir que não existem. Obrigado pelas tuas palavras, Voilá.

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  2. Mais uma vez deixo aqui as minhas sinceras saudações ao Agostinho pela beleza e assertividade do seu texto. Não posso deixar de comparar com a posição do monte-escuro que anunciou com a maior desfaçatez não saber porque razões há greve geral. O caramelo assume que não percebe, antes pelo contrário. Ainda afirma que os trabalhadores devem estar agradecidos pela precaridade, pelas horas extra à borla e tantas outras medidas gravosas. Aquilo não é um pacote laboral. Aquilo é uma declaração de guerra do capital ao trabalho e o bacano diz não perceber. Não há aí ninguém que lhe faça um boneco, chiça???!!!!!

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    1. Compreendo-te muito bem e agradeço as tuas palavras. Sempre admirei as pessoas do mundo do trabalho. Nasci nele e cresci com ele e doi-me muito este desprezo pelos trabalhadores que faz parte de todo o pacote laboral. É incompreensível este ataque aos trabalhadores. É revoltante.

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  3. Excelente, Agostinho!

    A desvalorização do trabalho por parte dos parasitas da sociedade é das coisas mais revoltantes nesta pós-modernidade balofa. Quanto mais inúteis, mais desprezam quem trabalha. E é verdade, a escola do facilitismo e das “medidas” está a contribuir para a produção deste tipo de gente, que não ganha gosto pelo estudo mas também não aprende nem quer trabalhar.

    Vou levar…

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    1. António, Acho que comungamos de ideais humanos muito semelhantes e só tenho de agradecer o teu reconhecimento. É sempre bom ouvir estas palavras animadoras e que nos ajudam sempre a ter um pouco mais de força nesta difícil luta contra as injustiças que nos dominam.

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