Donos disto tudo

Gostava de Pedir ao Pai Natal que não me chamassem de radical. Era a melhor prenda que poderia receber. Em criança, gostei muito de umas castanholas, compradas na feira dos 24, na Memória, e que faziam um ruído horrível quando eu rodava aquele maquinismo rudimentar. Todos fugiam de mim. Gostava que as minhas palavras não fossem castanholas e não provocassem tanto ruído. 

Lembrei-me do texto em, Mateus 16:21, quando Cristo se dirigiu a um jovem rico e lhe recomendou: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres”.

Que fique já bem claro que eu não conseguiria jamais este grau tão intenso de total despojamento. Isto não é para todos. A História humana já nos mostrou alguns exemplos admiráveis. Cristo foi um deles. Não foi em vão que Fernando Pessoa esclareceu que ” O mais do que isto/ é Jesus Cristo/, que não sabia nada de finanças / Nem consta que tivesse biblioteca”

Também não entendo muito de finanças, mas consigo perceber e compreender as mentiras e as meias verdades que me atiram à cara todos os dias, através das televisões e redes sociais, como se eu nunca tivesse andado na escola. Por acaso, quis a vida, que a escola fosse a minha casa e os livros meus grandes e fiéis amigos e companheiros.

Trata-se de coerência e honestidade. Não podemos ser perfeitos, nem isso seria desejável, mas poderíamos e deveríamos desconfiar daqueles que se dirigem ao povo a proclamar que tudo é corrupção, que o crime espreita em cada esquina e que temos de acabar com os subsídio-dependentes, quando têm nas suas fileiras, ladrões, cerca de 20% dos seus deputados com ações em tribunal e vivem dos subsídios do Estado e de algumas das maiores empresas portuguesas.

Desconfiar e não fazer fé num partido que ousa afirmar que a autorresponsabilidade é moralmente superior à solidariedade estatal. Um partido jovem, como o outro jovem que sonhava ser perfeito, mas que discorda da solidariedade social, como se todos nós pudéssemos ser ricos e cheios de saúde. 

Desconfiar e repudiar ferozmente um partido político que pretende reduzir a intervenção do Estado na proteção social. De acordo com seu programa politico, devemos acabar com a dependência do Estado através do trabalho e autorresponsabilidade. Como se o desemprego fosse a maior ambição do ser humano e como se todos pudessem trabalhar e sobreviver sozinhos. Se assim fosse, penso que as nossas escolas ficariam reduzidas a um terço dos alunos. E não tenho dúvidas que as ruas das nossas vilas e cidades seriam a nossa vergonha, como o foram durante 50 anos de ditadura. 

Se alguns líderes políticos, tementes a Deus, se dirigissem a Cristo e colocassem a mesma questão que colocou o outro jovem, não estaria eu muito longe da verdade se dissesse o que Cristo lhes responderia:

“Vão, e não vendam mais mentiras nem ilusões, não enganem mais o povo, levantem-se das cadeiras do parlamento, vão trabalhar e sejam auto responsáveis. Depois, limpos das vossas impurezas e das vossas consciências pesadas, vinde até mim, e podereis seguir-me.”

Os cristãos tinham a obrigação moral para se colocarem na linha da frente no combate à degradação dos mais elementares e básicos valores humanos. Ou não ponham a mão no peito e não se reclamem de cristãos. Silêncio, é conivência. 

4 opiniões sobre “Donos disto tudo

  1. José, não sejas tão pessimista… eu conheço algum ou muito público alvo desta série de textos que vou mandar para o ar. Sei que muitos não irão ficar totalmente indiferentes. Muita gente que conheço tem de ser confrontada com a verdade nas suas consciências. Isto de andar a beijar o menino Jesus e à primeira oportunidade mandar uma chapada no vizinho, tem de acabar ou não pensem que somos idiotas. Fazer cruzes para eleger bandidos e depois entrar na igreja e rezar o Pai Nosso e ficar tudo bem? Não, isto tem de ser desmascarado.

    Nunca pensei escrever sobre estas coisas, mas a verdade é que estou farto de escolas, tão farto que se pudesse, ontem já não punha lá os pés. E não estou a incluir nem alunos, nem colegas.

    Acho que também podias fazer qualquer coisa… concordas?

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  2. “Em criança, gostei muito de umas castanholas, compradas na feira dos 24, na Memória, e que faziam um ruído horrível quando eu rodava aquele maquinismo rudimentar. Todos fugiam de mim.”🤣🤣🤣

    Acho estes apontamentos da infância do Agostinho adoráveis. Projetam nos para a nossa.

    E depois parte deles para fazer crítica política e social com a lógica da prosa do Padre António Vieira, nos seus Sermões.

    Temos escritor.😉

    A sua crítica ao partido Chega com a ajuda das mensagens de Cristo é por demais adequada.

    Um partido que se intitula cristão, católico. Todos sabemos que Ventura, o seu líder, frequenta a missa segundo o ritual católico antigo,em latim, numa capela de Lisboa conhecida por esses vetustos rituais pouco acessíveis aos que votam nele.

    Só uma elite as frequenta. Uma elite fascista.

    Ventura é um fascista cristão. Uma contradição. Rodeia se de ideólogos fascistas, mas intitula se puro e defensor dos bons e velhos costumes cristãos.

    Nada mais enganador.

    Ventura encarna a figura do diabo 👿 chifrudo, de língua bífida e rabo de besta. E frequentemente fala nas TVs como se estivesse possuído de poderes de profeta. Um novo Messias, gostaria ele de ser. No caso, do mal.

    Tenho pena de quem se deixou enganar com o seu discurso anti corrupção, anti imigração, anti étnico e ajudou o partido Chega a eleger 60 deputados para conspurcar a Casa da Democracia.

    A sua saga contra o os pobres que recebem o RSI e os ciganos é deplorável. Os ciganos foram das minorias mais perseguidas desde que deixaram o seu local de origem: a Índia. Não podiam habitar as cidades, ninguém lhes dava trabalho. Eram uns miseráveis dignos de dó. Começaram a roubar para sobreviver, naturalmente, e tornaram se nómadas porque foram enxotados por todos. (Tal como os judeus desde sempre, também).

    Ventura não tem um pingo de humanidade. E é disso que eu falo, não sendo cristã. Mas defendo o humanismo, a empatia , a tolerância e até a compaixão.

    Ventura e os seus deputados são uns labregos, despudorados, vis e cruéis que não olham a meios para fazer triunfar a sua ideologia.

    Lamento que o povo português se deixe enganar. E goste.

    Obrigada, Agostinho, pelos teus textos que fazem luz.

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  3. Quando era criança, era uma criança com sorte. Não pelas castanholas compradas na feira no dia anterior à noite de Natal, mas porque era dos poucos com botas para colocar debaixo da chaminé. Muitos colegas meus iam descalços para a escola. Não era pobre mas convivi diariamente com a pobreza. Talvez isso possa explicar muita intolerância que mantenho com certas coisas e com certas pessoas.

    Voila, exageraste um pouco, mas és daquelas colegas simpáticas que todos os professores gostam de ter nas suas escolas. Não me importava muito que estivesses na minha, iríamos conseguir belos momentos de conversa, e mudavamos o mundo.

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