A caminho do parlamento

Um dia, há cerca de dois mil anos, caminhava um homem na estrada em direção a uma das cidades mais antigas do mundo, chamada Jericó. A certa altura, encontrou outro homem nessa estrada, que tinha a infelicidade de ser cego e ter de pedir esmolas para sobreviver. Um chamava-se Jesus Cristo e o outro Bartimeu. O cego encheu-se de coragem e começou a implorar a Jesus que o ajudasse e tivesse compaixão e misericórdia. Outros, que também caminhavam por ali perto, mandaram calar o cego, mas sem sucesso. O cego não parava de pedir misericórdia. Naquela agitação, Jesus mandou chamá-lo e perguntou-lhe o que é que ele queria. O cego queria ver e Jesus fez-lhe a vontade. (Marcos 10:46–52; Lucas 18:35–43)

Acho esta história encantadora. Naquele tempo, ainda não havia rendimento de reinserção social, ainda não havia segurança social, ainda não havia serviço nacional de saúde, nem clínicas públicas, ou cegos e coxos e aleijados a sobreviver à custa dos malvados e odiados subsídios do Estado. Também não havia nenhum sistema político que pudesse ajudar estes pobres desgraçados e muitos outros, a quem a sorte na vida não sorriu. Mas havia compaixão. Havia misericórdia. Havia empatia. Havia altruísmo, havia solidariedade e havia respeito pelo ser humano. Não digam que não, porque Jesus provou o contrário.

Se fosse hoje, e se naquela, ou em outras estradas, caminhassem uns políticos – que só não conhece quem prefere virar a cara ao lado – o que é que fariam, quando aquele cego, faminto e roto, a eles se dirigisse?

– Ó pá, não tens vergonha de andar a pedir esmola na rua? Vai mas é trabalhar! Tu não queres é trabalhar! És um malandro, é o que tu és!

Não finjas, seu parvalhão! Tu não és nada cego! Tu vês melhor do que eu! Tu queres é viver à custa dos nossos impostos!

– Mentiroso, ainda ontem te vi a andar na rua e ias bem vestido… Vai para a tua terra e respeita a nossa cultura! Tem vergonha, pá!

– O que é que tu queres, meu preguiçoso? Não tenho a culpa de seres cego, ou tenho? Se não vês, o problema é teu e vai pedir esmola para outra freguesia.

– Tu devias era de ter vergonha de passar a vida a pedinchar! Sempre a pedinchar, sempre a pedinchar… Esta gente só sabe é pedinchar. Não me chateies e desaparece do meu caminho!

– Desampara-me a loja, seu ceguetas maltrapilho! Devias ter vergonha! É uma vergonha, pessoas como tu!

– O que é que tu queres? Se és pobre, a culpa é tua! Não gosto de pobres. És pobre porque queres.

Mais de vinte em cada cem portugueses, era assim, mais ou menos, que resolvia aquela e muitas outras situações semelhantes. Se estou a blasfemar, provem-me o contrário. Factos não se podem refutar.

São cerca de vinte em cada cem portugueses. Um povo cristão e de brandos costumes, num país à beira-mar plantado. Com políticos que vão à missa e acreditam comungar o corpo de Cristo. São estes que estamos a eleger. São estes que nos representam no parlamento.

Uma opinião sobre “A caminho do parlamento

  1. Excelente metáfora . A caminho do parlamento.

    Apoiado na parábola do cego Bartimeu, Agostinho tece considerações sobre a falta de empatia, solidariedade e humanidade de 20% de portugueses cristãos, nos dias de hoje, perante: e os mais pobres, frágeis e desprotegidos da sociedade!!

    20% é muito! É um retrato muito mau da sociedade portuguesa cristã.

    E se o cego fosse substituído por um cigano ou migrante, a percentagem de xenófobos e racistas cristãos ainda aumentaria mais.

    Tempos muito difíceis estes que vivemos. E que envergonham a quem fez o 25 de abril.

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