Canalhice e subserviência

Há propostas que não merecem qualquer consideração. Corrigir uma questão de um exame por 1 euro ou reapreciar um exame por 12 euros é uma delas. Uma resposta corrigida pode exigir uma hora e um exame reapreciado pode levar muitas horas.

Quando fui docente emigrante, observei com muita atenção as relações de trabalho entre os meus compatriotas e os patrões ingleses. Percebi rapidamente que os trabalhadores portugueses eram especialmente apreciados por duas razões: porque trabalhavam bem e porque revelavam um espírito de subserviência que, ora me deixava estupefacto, ora me chocava.

O senhor Ministro da Educação saberá, certamente melhor do que eu, o que sente um professor quando lhe oferecem 1 euro pela correção de uma resposta de exame. Um euro por resposta. Um euro.

Se eu oferecesse 1 euro por cada telha colocada ao homem que anda a reparar o meu telhado, tenho a certeza de que me mandaria para muitos lados, recorrendo ao mais rico vernáculo nacional. E teria toda a razão. Posso, por isso, concluir que, para o ministro Fernando Alexandre, uma resposta de exame corrigida por um professor vale menos do que uma telha colocada no meu telhado.

O mesmo ministro ofereceu ainda 12 euros aos professores por cada exame revisto ou reapreciado. Seria o equivalente a eu propor ao pedreiro que me arranja o telhado 12 euros por cada metro quadrado de telhas colocadas. Imagino que nem perderia tempo com impropérios: abandonaria simplesmente a obra e deixar-me-ia a terminar o trabalho.

Foi precisamente isso que muitos professores fizeram. Recusaram a afronta, recusaram a pouca-vergonha e deixaram ao ministro a responsabilidade de resolver o problema. Outros, porém, fizeram o contrário. Exibiram a mesma subserviência que eu observara entre muitos compatriotas no estrangeiro e aceitaram a empreitada. Estou até convencido de que alguns se consideram bem pagos e que outros aceitariam fazê-lo de borla.

O povo costuma dizer que «depressa e bem não há quem» e que «o barato sai caro». Quem aceitou trabalhar nestas condições poderá ter as suas razões. Eu, porém, retiro uma conclusão: não dignifica a profissão docente nem respeita o valor do seu trabalho. É essa atitude de subserviência que desvaloriza a classe. E a subserviência nunca foi boa conselheira.

Quanto ao Ministro da Educação, gostaria de o contratar para reparar o meu telhado, desde que aceitasse cobrar 1 euro por cada telha colocada ou 12 euros por cada metro quadrado de telhas assentes.

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