Mães vítimas ou filhos imperadores?

No antigo regime político e social português, antes do nosso 25 de Abril, cumpriam-se as escrituras que eram pregadas nos altares de todas as igrejas portuguesas. Além do “esposas, obedecei aos vossos maridos”, fomentavam-se as famílias numerosas. Em Génesis 1:28, Deus diz a Adão e Eva: “Crescei e multiplicai-vos”.
A procriação era interpretada como a salvação das mulheres e um favor a Deus.

As famílias numerosas cresciam e todos nos lembramos de conviver porta a porta com famílias de meia dúzia de filhos e, muitas vezes, perto da dúzia. Este ambiente cultural interessava a todos, exceto às próprias famílias, que viviam, na maior parte das vezes, em condições indignas para seres humanos. Mas era também assim que se enchiam os seminários e os conventos, hoje vazios, e os ricos podiam dar-se ao luxo de ter nas suas casas meia dúzia de criadas para todo o serviço.

Felizmente, os tempos mudaram. As famílias numerosas são agora exceção, embora alguns ainda as exibam como sinal exterior de riqueza. O que antes era regra deixou de o ser. Não sei quem estava mais certo, se antes ou se agora. Mas posso tirar algumas conclusões, porque todos os dias trabalho com estes filhos sem irmãos, ou só com um, e raramente com dois.

Hoje celebra-se o Dia da Mãe. Ser mãe nunca foi fácil. Educar os filhos também não. Não sei se é uma condenação, mas as mães acabam sempre vítimas das circunstâncias. Vítimas porque têm muitos filhos e vítimas porque têm poucos filhos. E não sei onde serão mais ou menos vítimas. Só consigo saber que são sempre vítimas.

A escola é o retrato da mãe vítima de hoje. “Esposas, obedecei aos vossos maridos” deixou de fazer sentido, e a máxima sagrada mais correta seria: “mães, obedecei aos vossos filhos”. É o império do filho.

O filho quer, a mãe dá. O filho diz, a mãe obedece. O filho discute e reivindica, a mãe cala-se. O filho afirma, a mãe dá-lhe razão. O filho faz queixa do colega, a mãe levanta-se e a culpa é sempre do outro. O filho diz sim e a mãe não diz não. O filho reclama do professor, a mãe corre à escola, discute e exige que o filho mude de turma. O filho não estuda e tem notas fracas, a mãe volta à escola, porque o seu filho é discriminado e as notas são injustas. O filho é violento e mal-educado, a mãe protege, porque a culpa não é do filho.

A culpa nunca é do filho. O filho é o imperador do mundo. O meu filho.
Tenho pena das mães de antigamente. Não tenho menos das mães modernas.

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