Já alguma vez leram ou ouviram “portugueses roubam telemóveis na escola”? Ou “portugueses sodomizam colegas na escola”? Ou “portugueses envolvem-se em cenas de pancadaria na escola”? Ou “portugueses portam-se mal na escola”?
Nunca leram nem ouviram? Eu também não. Mas já li e ouvi “indianos roubam telemóveis na escola”. À boca cheia: “indianos roubam telemóveis na escola”.
Quando fui professor emigrante, cheguei a ler nos jornais locais de língua inglesa qualquer coisa como: “português apanhado a conduzir em excesso de velocidade”. Ou “português envolvido em tráfico de droga”. E fiquei chocado.
Português. Quem excedia a velocidade permitida por lei não era uma pessoa, um indivíduo com nome. Era o coletivo. Eram os portugueses. Quem vendia droga não era a pessoa A, B, C ou D. Era o coletivo português. Eu estava lá, portanto também tinha excedido a velocidade permitida e também era traficante de droga. Aquilo indignava-me.
Não durou muito tempo esta forma facciosa e cobarde de fazer informação. Não sei, nem afirmo, nem acuso de racismo. Talvez não estivesse muito longe da verdade, mas não gosto de levantar suspeitas se não tenho a certeza das intenções. Sei que se levantaram vozes locais, corajosas e esclarecidas, e, em pouco tempo, esse tipo de informação foi proibido.
O racismo e o desprezo pelo outro podem revelar-se de múltiplas formas. Fazer confundir a árvore com a floresta é uma estratégia antiga e revela muito claramente os valores defendidos por cada um de nós.
Foi sempre mais fácil acusar minorias e fazer delas o bode expiatório das nossas culpas e cobardias. É muito fácil acusar alunos indianos. É um pouco mais difícil, por exemplo, acusar um diretor pela falta de preocupação com a indisciplina geral nas escolas, ou pela falta de fiscalização e pela impunidade no uso de telemóveis e de outras ferramentas.
Levantamo-nos contra os mais fracos e baixamo-nos perante os mais fortes e poderosos. Racismo? Cobardia? Vingança? Não sei. Tenho alunos indianos excelentes e outros que nem por isso. Como tenho chineses e ucranianos ou portugueses excelentes e outros que nem por isso. A origem ou a nacionalidade não determinam o carácter de ninguém.

