Tem sido assim todos os anos, há muitos anos. Desde a primeira aula em setembro à última aula em junho. Confesso que é um nome de pessoa que já não suporto.
– Mas, ó stor, e o Ronaldo? O Ronaldo até atirou uma vez com uma cadeira a uma stora!
– Ó stor, mas o Ronaldo não tirou nenhum curso e é o mais rico do mundo!
– Ó stor, também faz coleção de cromos? O stor tem o Ronaldo?
Agora imaginem se eu não gostasse de futebol. Os últimos dias têm sido muito piores e é um fenómeno recorrente. Os alunos, principalmente os rapazes, não resistem à alienação dos cromos e entram na sala de aula alienados. A primeira coisa que colocam em cima da mesa de trabalho são as caixas com os cromos.
Sim, quando eu tinha a idade deles também preenchia cadernetas de jogadores e também tinha os meus favoritos. Mas nunca tive nenhum Ronaldo e os meus colegas também não. Era um passatempo saudável e não alimentávamos mitos como hoje.
O problema é bem mais sério do que possa parecer. Não se trata só de brincadeiras de miúdos. É muito mais do que isso e choca com a lógica da meritocracia que se instalou um pouco por todo o lado, com muito mais violência nas escolas. Ronaldo é o modelo a seguir e estudar História, Matemática ou Ciências pouco ou nada importa. Ronaldo também não é historiador, cientista ou matemático e é rico. Ronaldo é o exemplo do mérito que todos devem idolatrar.
E assim se manipulam e se enganam as crianças. Quantas vezes não me perguntaram já para que serve estudar esta ou aquela disciplina se não lhes serve para nada na vida e podem ser ricos como o Ronaldo?
A motivação ao estudo não se conquista só com técnicas pedagógicas. E o sucesso de um aluno não se mede com a maior ou menor ambição para gostar de ser rico. É verdade que todos precisávamos de ser ricos, mas a riqueza humana também não se pode medir com a quantidade de dinheiro que cada um guarda no bolso.
Estamos a ensinar crianças para ambicionarem ser ricas. Não estamos a educar crianças para desejarem ser humanas. A introdução da “literacia financeira” nas escolas é um bom exemplo e ilustra muito bem o tipo de cultura que estamos a transmitir às nossas crianças e jovens.
A riqueza pode ser importante e não é crime, mas a humanidade deve sê-lo muito mais. Idolatrar Ronaldos talvez não seja a melhor opção para criarmos cidadãos inteligentes, humanos e mentalmente saudáveis.

