Se o ridículo chorasse

Se o ridículo chorasse, as nossas escolas seriam um vale de lágrimas.

Aproximam-se as avaliações semestrais ou trimestrais dos alunos que terminaram agora o ano letivo. Vou ser muito brando com o ridículo de haver alunos neste país a frequentar o mesmo ano de escolaridade e uns serem avaliados duas vezes por ano e outros três. Parece que há escolas em Portugal que não pertencem ao mesmo país. E há ridículos ainda maiores.

Um médico recebe, numa manhã ou numa tarde, vinte ou trinta pacientes, o equivalente a uma turma de alunos. Se diagnosticar mais de 30% de pacientes com a mesma doença, o médico está a pedir sarilhos e terá de justificar, com rigor, por que razão tem 30% de pacientes com hepatite, por exemplo.

Não terminaram os problemas do médico. Se diagnosticar mais de 20% de diabéticos em relação às outras doenças diagnosticadas, o médico entra em incumprimento, porque esses 20% apresentam discrepância relativamente às restantes percentagens de doenças diagnosticadas.

O calvário cresce. O pobre do médico não pode apresentar mais de 10% de diagnósticos de uma determinada doença em relação a todas as restantes. Ou falsifica o diagnóstico, ou engana o paciente, ou terá de enfrentar o Tribunal da Inquisição.

Entretanto, se diagnosticar um paciente com pedra no rim e, de entre todos os pacientes, esse for o único desafortunado com pedra no rim, o diagnóstico estará errado e o médico ficará proibido de diagnosticar um paciente com essa patologia. Terá de colocar a pedra noutro lado ou enganar o paciente e dizer-lhe que a pedra está noutro sítio.

Com todo o rigor, é exatamente assim que decorrem os Conselhos de Turma, com todos os professores de uma turma reunidos para avaliar os alunos nas respetivas disciplinas. São estes os critérios que todos, sem exceção, têm de cumprir.

Não se avalia com seriedade. Todos cumprem e obedecem ao que lhes é superiormente exigido. Pensavam que já tinha terminado? Não. Pura ilusão. Se, dos trinta pacientes, houver um que apresente sintomas de quatro doenças semelhantes, não é o paciente que está em apuros. É o médico.

O professor não avalia conhecimentos, competências ou atitudes. O professor cumpre quotas. Os testes, ou fichas de avaliação, são uma mera formalidade. É como se as análises clínicas destinadas a avaliar ou despistar qualquer anomalia no organismo fossem pedidas apenas para serem lançadas ao lixo antes ou depois da avaliação do médico.

Quando a avaliação tem de se adaptar a quotas, deixa de ser avaliação. Passa a ser contabilidade.

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