Os tempos são outros, pois é verdade, e já dizia Heráclito de Éfeso, filósofo grego, que “tudo muda, nada permanece”. Ou, por outras palavras, “ninguém entra duas vezes no mesmo rio, porque, quando nele entra novamente, nem o rio é o mesmo, nem a pessoa é a mesma”. É assim o mundo e não há maneira de o parar, porque só existe em movimento e transformação.
O que este filósofo não sabia, nem imaginava, é que as virtudes e os valores humanos pudessem sofrer tão profundas transformações. É verdade que o movimento é uma das leis mais belas e justas da natureza: Deixa-nos contemplar ciclicamente a beleza das pétalas de uma flor ou os saborosos frutos das árvores.
Sobre justiça e valores, teríamos de pedir ajuda ao filósofo Sócrates, um pouco mais novo do que o anterior, para entender melhor esta maré de loucura, manipulação e mentira de que todos somos vítimas. É o caso da inclusão. Não sei se alguma vez se mentiu tanto sobre um conceito que nos deveria encher de orgulho.
A inclusão. É uma palavra bonita, mas que já não suporto ouvir, tamanha é a pouca-vergonha com que é usada. Desconfio que os ministros e diretores de escolas a pronunciam mais vezes por dia do que as vezes em que vão à casa de banho. Já enjoa e faz-me subir à cabeça uma espécie de bílis azeda.
Querem falar de inclusão? Querem inclusão? Caramba, comecem por gritar por salários melhores para todos e deixem de dar esmolas aos pobres.
Inclusão? Exijam salas de aula dignas desse nome. Algumas são até ilegais, porque não cumprem a lei do espaço reservado a cada aluno. E ao professor, que nem consegue chegar ao lado de todos os alunos.
Inclusão? Ponham os materiais de trabalho indispensáveis em cada sala de aula e parem de reclamar com os professores, exigindo planos de melhoria das aprendizagens.
Inclusão? Paguem dignamente aos professores e tenham professores para todos os alunos, como sempre tivemos depois do 25 de Abril.
Inclusão? Ponham os manuais escolares nas salas de aula e parem de fazer propaganda aos livros que os alunos esquecem em casa, ou perdem, ou que ficam presos no cacifo porque perderam a chave, ou porque foram roubados, ou porque se encharcaram de água na mochila.
Inclusão? Contratem técnicos especializados para ajudar crianças com deficiências. Reconheçam o erro de as meter em turmas onde não podem aprender, nem conseguem deixar aprender os outros.
Inclusão? Se temos de usar computadores, encham as salas de aula com eles. Não os ofereçam ou emprestem de mão beijada quando é preciso ganhar eleições. Porque já ninguém tem computador.
Inclusão? Onde estão os equipamentos para aprender Ciências, ou Música, ou Artes? Onde estão? Salas de aula vazias, onde não se pode aprender com experiências ou instrumentos musicais. Salas vazias.
Inclusão? Imponham disciplina e educação nas escolas. Revoguem a impunidade dos alunos e defendam os professores que lutam todos os dias, com muito sacrifício, pela educação dos filhos deste país.
Já não se redige um documento numa escola sem a palavra inclusão. Inclusão não é deixar escrito no papel. Inclusão não é o discurso bonito do senhor ministro e do senhor diretor. Inclusão não é propaganda. Inclusão é trabalho, responsabilidade e honestidade.

