O evangelho da avaliação

A azáfama da avaliação de professores é geral. Entretanto, a escola decidiu inspirar-se nas fontes teóricas e sedutoras que defendem a magia de cada um ser responsável pelo seu próprio destino. Se não tens sucesso, é porque não és bom.

Aplicado à vida real, isto significa que todos podem conseguir e obter sucesso, desde que se empenhem, se esforcem e acreditem. Para os professores, significa que, se não têm sucesso, a culpa é deles e, portanto, merecem o respetivo castigo. Aplica-se, assim, a teoria da meritocracia.

De acordo com esta teoria, que não contempla o sucesso de todos, porque nem todos podem ser muito bons ou excelentes, tudo pode ser pesado e medido com um rigor de tal ordem que se consegue diferenciar, até à milésima, a qualidade, ou a falta dela, de um docente.

É uma teoria tão sedutora que facilmente entra no domínio da aceitação do pensamento comum: os melhores têm de ser distinguidos e todos têm de ser avaliados de acordo com o seu mérito. Esta tentação não é menos sedutora do que a da tradicional raspadinha. A maior diferença está na possibilidade de sucesso ao raspar um prémio.

A política da meritocracia é menos vantajosa para quem trabalha. Se raspares muito, a probabilidade de teres sucesso é de cerca de 30%, enquanto, para quem trabalha, a probabilidade de ser premiado, depois da submissão às medidas meritocráticas, não ultrapassa os 20%.

A avaliação de professores tem menos mérito do que os prémios da raspadinha. E, quando ganhamos ao raspar, não humilhamos quem perde. Quando ganhamos na avaliação de mérito, estamos a discriminar 80% dos colegas avaliados. Nada como uma boa teoria para justificar a recompensa de uns à custa da humilhação de outros.

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