Aprendi isto a trabalhar na aldeia onde nasci. Lavradio, concelho de Ourém. Poderia ainda dizer alguns nomes desses trabalhadores do povo, como eu, também do povo, que diziam frequentemente: “Nunca conheci ninguém que tivesse enriquecido a trabalhar.” A sabedoria do povo tem muito de verdade.
Salvo raras exceções, honra seja feita aos trabalhadores desta aldeia. Só foi pena terem de abandonar, ou fugir do seu país, se queriam ver rentabilizada a força do seu trabalho. Tiveram de passar os Pirenéus, mas conseguiram, do lado de lá, vencer o desprezo com que eram tratados do lado de cá. E, mais uma vez, tenho de invocar a sabedoria popular: “Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu.”
Sim, porque muitos destes trabalhadores honrados, emigrantes ou filhos de emigrantes, também estão na linha da frente da contestação daqueles que, tal como eles, tiveram de abandonar a sua terra para procurar fora o reconhecimento recusado na sua. Talvez porque o sucesso da emigração tenha algumas manhas que só eles conhecem e tenham receio de que sejam copiadas por outros no seu próprio país.
Eu não queria agora ser jovem ou muito velho. Os velhos, coitados, calam-se e já lhes faltam as forças para fazer barulho na rua. Os mais novos, sufocados com políticas asfixiantes e sem esperança de futuro, arranjaram coragem para fazer na rua aquilo que os velhos já não podem. Uns porque são forçados a sair de casa e outros porque não conseguem entrar numa.
Os velhos não têm desculpa. Já deviam saber que não enriqueciam a trabalhar. E, se não conseguiram comprar uma casa, não fossem parvos e não tivessem trabalhado. Agora, os mais novos, aprendam com aqueles que os mandam trabalhar quando vêm gritar para a rua. O povo tem sempre razão. Não é a trabalhar que se ganha para comprar uma casa.

